Berlim pesa a ambição de sediar os Jogos Olímpicos futuramente

A capital alemã sediou os Jogos em 1936

Foto: Divulgação
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Sede dos Jogos Olímpicos de 1936, Berlim, capital da Alemanha, pesa a ambição de sediar os Jogos Olímpicos no futuro.

A capital alemã segue em frente com seu plano de sediar os Jogos em 2036, 2040 ou 2044, mesmo com o escrutínio da viabilidade de sua candidatura se intensificando com o apoio do comissário Kaweh Niroomand e a análise do economista esportivo Stefan Chatrath.

A candidatura olímpica voltou à agenda de Berlim e, com ela, um debate que não se limita mais ao esporte, mas se estende ao planejamento urbano, à economia e à relação entre instituições e cidadãos. Em um artigo de opinião publicado na semana passada no jornal Welt, Niroomand colocou a cidade no cenário internacional ao argumentar que “Berlim possui, como a maior metrópole do país, vantagens estruturais, reputação mundial e poder simbólico político”, uma ideia que permeia toda a sua argumentação.

O responsável pela candidatura construiu seu argumento como uma resposta àqueles que acreditam que o contexto atual inviabiliza qualquer candidatura, contestando essa interpretação e alertando que “Alguns concluem disso que os Jogos Olímpicos são atualmente impossíveis de serem realizados. Mas esse argumento é falho”.

A mudança de perspectiva também se reflete na forma como o debate econômico é estruturado. Em vez de se concentrar apenas na escala dos gastos, o comissário os insere em um sistema estruturado que, como explicou ao jornal alemão, se divide em três partes: o orçamento de organização, o orçamento de infraestrutura com impacto duradouro e o orçamento para serviços públicos, como segurança e saúde. Dentro dessa estrutura, os custos de organização, estimados em cerca de € 5 bilhões, poderiam ser compensados ​​pela receita, como o comissário destacou ao lembrar que “os Jogos Olímpicos de Verão de Paris 2024 registraram superávit nessa área”.

Niroomand fundamentou seu argumento no efeito transformador desses investimentos e insistiu que “as Olimpíadas não substituem as políticas estruturais. No entanto, elas podem consolidar prioridades, acelerar processos e viabilizar investimentos”, apresentando os Jogos como uma ferramenta capaz de concentrar recursos e agilizar decisões que, de outra forma, seriam mais lentas.

O comissário também argumentou que mesmo medidas que, isoladamente, seriam insuficientes, adquirem um significado diferente. “Por exemplo, a Vila Olímpica poderia criar cerca de 2.500 moradias permanentes. Isso não resolve o déficit estimado de 100.000 moradias, mas fornece um impulso – e mobiliza fundos que dificilmente estariam disponíveis no orçamento regular”, observou ele.

Niroomand citou Paris 2024 como um ponto de referência para um modelo mais contido, focado na reutilização, e enfatizou que “cerca de 95% das instalações da competição eram temporárias ou já existiam”; uma abordagem que evitou grandes projetos e deixou um legado urbano tangível em transporte, infraestrutura e desenvolvimento de bairros.

Além dos números e do planejamento urbano, Niroomand levou o debate para um plano menos tangível, mas igualmente decisivo, onde localizou o potencial coesivo dos Jogos, enfatizando que “a coesão social se manifesta (também) por meio de narrativas compartilhadas, momentos coletivos e experiências que formam a identidade”.

A análise de Chatrath ofereceu uma leitura mais cautelosa. Em entrevista ao veículo local Rbb24, o economista afirmou que processos desse tipo geralmente geram posições opostas e lembrou que “no mínimo, sempre há uma discussão”, aludindo à dinâmica familiar de apoio e oposição que acompanha as candidaturas olímpicas.

O analista argumentou que Berlim atende às condições técnicas necessárias e a descreveu como “uma cidade esportiva com vasta experiência em grandes eventos esportivos internacionais”, destacando sua experiência em sediar competições internacionais, a disponibilidade de infraestrutura e sua capacidade logística. No entanto, ele também direcionou a atenção para o fator social e disse que a concessão dos Jogos depende de “viabilidade, uso posterior e aceitação social”, sendo esta última potencialmente a questão mais em aberto no caso da capital alemã.

A partir daí, Chatrath concentrou-se em dinâmicas que já afetaram outras candidaturas e que, em sua opinião, também podem ser observadas em Berlim, apontando para a existência de um “déficit de confiança” nas instituições, agravado por um “medo dos custos”; fatores que, como explicou, também estiveram presentes em outros processos fracassados.

Esse receio é alimentado pelo contexto econômico da cidade. Chatrath alertou que “há um alto grau de sensibilidade em torno da questão dos custos”, em um ambiente marcado pelo aumento do custo de vida e pela pressão sobre o mercado imobiliário, fatores que amplificam quaisquer receios sobre novos investimentos públicos.

A discussão não se limita ao “o quê”, mas também ao “como”, e a decisão do Senado de descartar um referendo introduz outra perspectiva ao debate, que o economista endossou ao afirmar que “acho correto não realizar um referendo para as Olimpíadas. Simplesmente por razões de custo. Em outras regiões, os referendos envolvem custos que chegam a vários milhões de euros. Mas, no final, apenas uma cidade pode ganhar. Portanto, muito dinheiro está sendo gasto aqui sem nenhum benefício real.”

O próprio Chatrath sugeriu que o debate ainda está em um estágio inicial e observou que o projeto “ainda está longe de ser uma questão que abranja toda a cidade”, uma distância que ele explicou em parte pelo horizonte ainda distante dos Jogos, o que, por enquanto, mantém a discussão em uma fase mais latente do que decisiva.

Entre o ímpeto institucional e as dúvidas que permeiam a sociedade, a candidatura olímpica de Berlim emerge como um processo ainda em construção, no qual o equilíbrio entre ambição e cautela será fundamental para a trajetória da proposta, em uma cidade que, além da competição internacional, parece estar enfrentando um debate sobre seu próprio modelo para o futuro.

Regys Silva

Regys Silva

O surtado original. Criador do site em 2011 e louco pelas disputas da final olímpica do badminton até a final C do skiff simples do remo.Cearense e você pode me achar em Regys_Silva
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