Na entrevista para o Surto Olímpico, Tayana falou das perspectivas para Los Angeles 2028 e da constante superação vivida por um halterofilista, além de como enxerga o cenário do esporte paralímpico nos dias atuais
A halterofilista e campeã paralímpica em Paris 2024, Tayana Medeiros, concedeu entrevista exclusiva ao Surto Olímpico. Neste bate-papo, a atleta de 33 anos falou do seu começo no esporte, da sua vivência no Morro da Fé, no Complexo da Penha e também da transição escola-esporte, já que Tayana, antes de ser halterofilista, atuava como bibliotecária.
Confira abaixo a entrevista:
SO: Na época dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio, em 2016, você tinha 23 anos. Minha primeira pergunta é: como mensurar a sensação de ter recebido uma Olimpíada e uma Paralimpíada no estado e na cidade onde você nasceu?
Tayana: Pra mim foi uma coisa incrível, porque eu não vivia aquilo. Era um mundo totalmente diferente. Eu assistia às últimas edições, mas era como se fosse “só mais um atleta competindo”. Até que eu comecei a vivenciar aquilo pessoalmente por causa de um amigo meu, que amputou a perna e acabou me dando um start pro esporte. Eu comecei no esporte em 2016 e, quando fiquei sabendo que as Paralimpíadas seriam no Rio, me encantei. Passei a vivenciar aquele mundo. Eu trabalhava na época e pedi pro meu patrão me liberar pra assistir alguns jogos. Acabei indo assistir, se não me engano, a Verônica Hipólito competia naquele dia. Aquilo foi um divisor de águas pra mim. Vi que realmente tinha nascido pra aquilo, que eu gostava daquele universo e queria viver aquilo de alguma forma. Então foi muito especial, ainda mais por acontecer na cidade onde eu nasci e cresci. E ver que existem legados até hoje no Rio por causa disso é muito importante pra mim.
SO: Você, antes de ser halterofilista, atuou como bibliotecária em uma escola. E da escola pro esporte, não é segredo pra ninguém que existe uma transição longa e difícil. Como foi todo esse processo?
Tayana: Foi um processo bem complicado. Eu consegui uma liberação no trabalho e treinava de manhã. Ia pro CEFAN, treinava, saía no horário do almoço, voltava pra trabalhar e depois terminava o treino à noite na academia. Vivi isso por dois anos da minha vida. Até que precisei sentar com meus pais e falar: “Vou ter que decidir entre o esporte e o trabalho”. Na minha cabeça eu queria o trabalho, porque o esporte ainda não tinha me dado retorno. Eu achava que tudo seria muito rápido, mas depois percebi que não era assim. Quem me convenceu a continuar foi minha irmã. Ela falou: “Se o esporte é seu sonho hoje, você vai viver dele. A gente segura as pontas aqui”. E foi isso que aconteceu. Acabei largando o trabalho, que também era uma paixão, porque eu amava estar perto das crianças. Hoje muitos alunos me acompanham nas redes sociais e me mandam mensagem. E eu tenho muito a agradecer ao pessoal do colégio, porque eles me ajudaram muito no início: meu primeiro passaporte, minha primeira competição. Então sou muito grata por terem contribuído nessa caminhada.
SO: Ainda nesse tópico da transição entre escola e esporte, quando e como surgiu o gosto pelo halterofilismo e pelo esporte paralímpico?
Tayana: O gosto pelo esporte paralímpico surgiu depois que esse meu amigo contraiu uma bactéria na comunidade onde a gente morava e amputou a perna. Ele me apresentou o esporte paralímpico. Meus dois melhores amigos de infância estavam envolvidos nisso: um era treinador dele e o outro praticava atletismo. O halterofilismo entrou na minha vida como um resgate da Tayana que eu sou hoje. Um amigo meu, que hoje é treinador da modalidade, era atleta na época e me apresentou o esporte no Centro de Levantamento de Peso, no Rio. No começo eu não queria, porque achava que era “esporte de homem”. Eu já tinha os braços grandes e não queria ficar ainda mais forte. Mas ele insistiu pra eu fazer um teste. Fiz 95 kg nesse teste e tinha duas semanas pra competir. Mesmo assim eu dizia que não queria. Até que descobrimos um evento-teste do Rio 2016 no halterofilismo, no Parque Olímpico da Barra. Fui assistir, ainda sem muito interesse. Antes disso pesquisei sobre a modalidade e conheci a Márcia Menezes e o Bruno Carra, que viraram meus grandes ídolos. Quando cheguei na arena, a Márcia estava competindo. Aquilo concretizou meu desejo de virar atleta. Minha primeira competição foi em abril de 2017 e ali nasceu realmente minha paixão pelo halterofilismo.

SO: Inclusive eu estava lendo sua entrevista pro Marcos, do Surto Olímpico, em 2024, e você falava justamente da Márcia e do Bruno.
Tayana: Sim. Eles pra mim são os pilares de eu estar aqui hoje.
SO: Você tem duas Paralimpíadas no currículo: Tóquio 2020 e Paris 2024, onde conquistou o ouro. Qual a sensação de fazer parte desse seleto grupo de medalhistas paralímpicos?
Tayana: A sensação é de muita responsabilidade. Hoje eu estou no meio de pessoas que eu via medalhar, conquistar coisas, e conhecer as histórias delas. Agora vivendo isso, percebo o tamanho da responsabilidade. Eu não conquistei essa medalha sozinha. Foi junto com comissão técnica, atletas, minha família, uma nação inteira. Hoje vejo crianças falando que querem ser iguais a mim e penso: “Caraca, eu sabia que a medalha mudaria minha vida, mas não imaginava que traria tanta responsabilidade”. Então hoje tenho muito cuidado com as coisas que faço e falo, porque sei que existem muitas pessoas por trás disso.
SO: Ainda falando sobre o ouro em Paris: quais aprendizados essa conquista trouxe? E como estão os treinamentos pensando no bicampeonato?
Tayana: Sempre existe pressão. Quando não vem de fora, vem de mim mesma. Eu me cobro muito pra melhorar todos os dias. Às vezes me frustro quando algum treino não dá certo, mas depois coloco a cabeça no lugar e entendo que nem todo dia será 100%. Os treinamentos estão bem puxados. Temos metas até Los Angeles. Quero melhorar minha marca e minha colocação no Mundial, porque ainda está engasgada a medalha que deixei escapar. Não foi culpa de adversária nem de ninguém, foi culpa minha, da pressão que coloquei em mim mesma. O Mundial aconteceu logo depois de Paris, e Paris me abalou emocionalmente pela repercussão da medalha. Eu não imaginava que seria tão grande. Foi estranho chegar em competição e as pessoas me reconhecerem, adversárias pedirem foto. Hoje eu trabalho muito o psicológico pra não deixar o medo me dominar, como aconteceu no Mundial.
SO: Já dá pra criar expectativas pra Los Angeles?
Tayana: A sensação é de mais uma vez estar cumprindo um trabalho. Ainda temos um caminho longo pela frente: Campeonato das Américas, Mundial, Parapan. Ir pra Los Angeles hoje significa ir com o dobro da responsabilidade que fui pra Paris, mas também com aquele gostinho de querer outra medalha de ouro. E eu pretendo chegar lá com uma marca muito forte, talvez uma marca que nenhuma mulher brasileira tenha feito ainda — ou até mesmo no mundo.
SO: O halterofilismo exige superação constante. Como funciona esse preparo físico e psicológico pra competir consigo mesma e se manter no topo?
Tayana: A preparação é muito intensa. Treinamos de segunda a sábado, manhã e tarde. Fazemos muitos testes pra entender o que podemos melhorar: ajuste no banco, na execução, em tudo. Desde Paris eu praticamente não parei. Só tive uma pausa em outubro e depois seguimos numa rotina muito pesada. Mas o que mais me pega é o psicológico. Hoje trabalho muito isso com meu psicólogo, o Lucas Lara. Antes de Paris eu era “mais uma atleta brasileira”. Depois da medalha, passei a ser olhada de outra forma. No Mundial eu estava muito bem preparada fisicamente, mas deixei o medo me dominar. Medo do público, da pressão, de enfrentar novamente a chinesa. Então hoje digo que meu maior adversário sou eu mesma e minhas emoções.
SO: Usando uma analogia do Caio Bonfim sobre completar um álbum de figurinhas de conquistas, a figurinha que falta pra você é o título mundial?
Tayana: Com certeza. O título mundial e o recorde mundial. Eu estava assistindo umas competições e vendo o recorde da chinesa. Aí falei pro meu treinador: “A gente tem uma missão”. Não quero chegar no próximo Mundial apenas como medalhista paralímpica. Quero chegar como recordista paralímpica e mundial, indo buscar essa medalha de ouro.
SO: Como você enxerga o cenário do esporte paralímpico no Brasil hoje?
Tayana: Hoje eu enxergo o esporte paralímpico como salvação. Porque ele salva pessoas que desacreditavam delas mesmas. Eu era assim. Tinha vergonha de mim, achava que por ter deficiência não poderia chegar a lugar nenhum. E o esporte paralímpico entrou na minha vida pra mostrar que eu era capaz. Hoje vejo isso em muitos atletas novos. Essa semana chegaram três atletas novos na equipe e eles falaram: “Vocês são tão felizes, e eu me privei disso por vergonha”. Então vejo o esporte paralímpico como salvação, não só pra mim, mas pra muita gente.
SO: Tem expectativa pro Parasul-Americano de Valledupar?
Tayana: O frio na barriga já começou desde a primeira listagem. É meu primeiro Parassul-Americano, então nunca vivi isso antes. E ainda existe a chance de fazer uma marca que pode me colocar no topo do ranking. Estou trabalhando muito pra chegar tranquila e melhorar minha marca da última competição internacional, que foi no ano passado.
SO: Você falou bastante da comunidade onde cresceu. Qual era exatamente?
Tayana: Eu morava no Complexo da Penha, no Morro da Fé, entre o Complexo da Penha e o Complexo do Alemão. Tive um começo complicado, tanto no esporte quanto na adolescência, mas agradeço muito porque aquilo me fez crescer como pessoa. Muitas vezes eu perdia treino por conta de tiroteio. Minha mãe se arriscava pra me ajudar a chegar até o ponto de ônibus, porque sabia que eu tinha competição chegando. Chegou um momento em que tivemos que pedir pra eu morar dentro do quartel durante a semana, pra conseguir treinar sem passar por isso. Mas, apesar das dificuldades, tive uma infância muito boa na comunidade. E sou muito grata aos meus amigos, porque eles abriram essa porta do esporte pra mim.

SO: E relembrando Paris: como foi a sensação de conquistar a medalha de ouro?
Tayana: Foi sensação de dever cumprido. Passou um filme na minha cabeça: tudo que eu abri mão, sair da casa dos meus pais, perder momentos com minha família, viver em outro estado praticamente sozinha. Antes de Paris eu queria desistir. Eu tinha acabado de operar o pé, estava machucada, emocionalmente abalada. Mas meu técnico falou: “Você não chegou até aqui pra desistir agora”. Quando conquistei aquela medalha, pensei que tinha valido a pena cada renúncia. Hoje digo que faria tudo de novo pra viver aquilo outra vez.









