Por Lucas Felix
A Copa do Mundo de 2026 termina com uma situação inédita para algumas gerações: o atual campeão olímpico de futebol se torna também o detentor vigente da taça Fifa. É uma dobradinha que até então era restrita apenas para Uruguai e Itália, ambas com a ajudinha de um Mundial em casa para completar a conta nos anos 1930.
Mais do que vencedora do ouro em Paris e do troféu em Nova York, a Espanha consagra uma correlação mais do que direta entre as conquistas. Se a Argentina vencedora em 2022 no Catar já havia feito história com as sobrevivências de Messi e Di María desde a festa dourada em Pequim 2008, os espanhóis Eric García, Marc Pubill, Joan García, Álex Baena e Pau Cubarsí aguardaram apenas dois anos para estar simultaneamente no topo do mundo e do Olimpo.
Outros tantos dos campeões (novamente Eric García, Unai Simón, Cucurella, Martín Zubimendi, Merino, Pedri, Dani Olmo e Oyarzabal) haviam disputado a final de Tóquio 2021 diante do Brasil, sendo ali derrotados na mesma etapa da prorrogação que ontem se transformou em alegria.
Das seleções medalhistas na Olimpíada da França, a própria então dona da casa chegou agora nas semifinais da Copa (caindo para a Espanha) e os medalhistas de bronze marroquinos foram até as quartas de final (derrotados diante da França). Ou seja, se destacaram no torneio mundial até que encontrassem outra egressa do pódio no caminho.
É um cenário que indica como o torneio olímpico de Los Angeles irá merecer atenção do mundo. E do Brasil, caso se classifique para o disputar depois da ausência parisiense. O enfrentamento com diferentes escolas é uma experiência que não é trazida pela Copa América, afinal.
Mas e a nossa atenção como público daqui a dois anos, como estará? A Copa do Mundo dá algumas respostas e outras tantas interrogações quando observamos o comportamento da mídia brasileira durante o torneio.
A Globo teve a sua Londres 2012 do futebol: não tão brutal por ter mantido parte dos direitos na TV aberta, ainda mais cruel por ter apagado também o SporTV nas limitações impostas. A falta de sabedoria na condução do contrato já é consensual até internamente na emissora, mas o que foi feito com a metade da Copa que lhe coube também rende debates.
A promessa da emissora líder de audiência foi a de “vestir o Brasil de Copa”. Não funcionou. Editorialmente falando, se tratou de uma cobertura fria e distante da Seleção. Seja de pouca euforia nos raros instantes de ilusão proporcionados, seja de pouca cobrança nos tantos de desesperança.
O excelente narrador Everaldo Marques, voz emocionada e emocionante de conquistas brasileiras históricas nos últimos anos no surfe, skate, futebol de areia e futebol de cegos, conduziu as histórias dos jogos com a qualidade de pesquisa de sempre. Mas o titular da Globo na Copa acaba incumbido de ser o maestro também do ritmo do país. E nisso ele não funcionou.

Há de se considerar que Luis Roberto, felizmente em boa recuperação e igualmente vindo de uma sequência magistral antes de se tornar número 1 do pós-Galvão, também havia falhado na missão na Copa América. E como a grade de programação além das transmissões tampouco conseguiu mobilizar o país em torno do time, a questão parece ser mais estrutural do que individual.
Muito além da mera rivalidade de torcer ou secar, a Globo fez escolhas editoriais equivocadas ao apostar que o viés estrangeiro poderia ser a observação mais interessante da Copa. Em alguns momentos, o canal pareceu uma sucursal da Telefe com tamanha empolgação diante dos recordes do argentino Lionel Messi (o mais badalado deles superado por Mbappé durante a própria Copa). Um tom constrangedor de busca por uma narrativa de protagonismo que não se confirmou ao final do Mundial.
Não se trata de questionar a genialidade do argentino, mas de considerar qual a prioridade para o interesse público nacional, dentro do raio atingido pelo sinal do canal. Termos comemorado mais o ouro de César Cielo do que os de Michael Phelps não quer dizer que ignoramos a dimensão do americano. Significa apenas que priorizamos os nossos, com o envolvimento emocional sendo muito mais relevante do que uma análise estatística.
Thiago Braz em uma noite inspirada certamente trouxe muito mais olhares brasileiros para o salto com vara do que os recordes em sequência de Armand Duplantis. Esse pertencimento tão necessário não é uma novidade ou uma exceção pedida ao futebol. Se lembrarmos da Olimpíada anterior em Los Angeles, Joaquim Cruz nos foi muito mais marcante do que Carl Lewis. Nos Jogos de Inverno deste ano, o ouro de Lucas Pinheiro nos mobilizou bem além dos seis levados por Johannes Klaebo. A situação certamente foi inversa na Noruega. Exatamente como deve funcionar.
Ao tentar vender a Copa como algo “do futebol” e não “do Brasil”, a Globo adota um padrão de nicho que seria incompatível mesmo com o SporTV. No lugar de preparar o público para se manter conectado após a eliminação canarinha, minimiza o seu teto mesmo enquanto a participação ainda ocorre.
O medo das acusações de “pachequismo” não pode imobilizar a criação de uma relação entre os brasileiros e quem os inspira. Em Los Angeles, mesmo nas competições de ambientes mais amigáveis como o skate e a ginástica, mais milhões de pessoas vão alterar as suas rotinas na espera da consagração de nossas referências do que simplesmente por um espetáculo técnico de boas notas oriundas de todo o mundo.

