Alex Ovechkin, líder em gols na história da NHL, falou na quinta-feira sobre sua participação em um vídeo para o partido político do presidente russo Vladimir Putin, afirmando que aceitou o pedido do governo sem hesitar, ficou surpreso com a repercussão negativa e apoia seu país de origem, ao mesmo tempo em que reiterou comentários anteriores de que "defende a paz e o amor".
"Quero paz e amor para todos", disse Ovechkin à ESPN. "Não importa quem você seja: americano, russo ou ucraniano. Espero que tudo fique bem e que tudo se resolva em breve."
Questionado sobre como explicaria sua decisão de participar do anúncio — no qual o ministro das Relações Exteriores da Rússia transmitiu uma mensagem fortemente alinhada à propaganda que culpa os ucranianos pela invasão de seu país —, Ovechkin respondeu que "não é a favor da guerra". Ele apenas apoia "o que está acontecendo na Rússia" e espera que a guerra "termine logo", afirmou.
Sobre a invasão da Ucrânia por Putin, Ovechkin disse: "Não me envolvo com política. Não posso dizer quem está certo e quem está errado". Ele acrescentou que apoiaria seu país independentemente de qualquer coisa.
Ovechkin, de 41 anos, disse à ESPN que gravou o anúncio há três semanas e não informou ao Washington Capitals que planejava participar do vídeo da campanha antes de assinar uma extensão de contrato de um ano, em julho.
O gerente geral do Capitals, Chris Patrick, disse à ESPN que, se Ovechkin tivesse avisado a equipe sobre a intenção de gravar o anúncio, "teríamos nos esforçado muito para evitar essa situação. E duvido que estaríamos nesta posição agora se ele tivesse consultado a gente antes".
Patrick acrescentou que sente empatia por Ovechkin.
"Existem fatores que, a menos que você esteja na pele dele, são difíceis de compreender para alguém que cresceu nos Estados Unidos", disse Patrick. "Tudo o que podemos fazer agora é tentar apoiá-lo. Ele é uma pessoa maravilhosa. Sei que, em certos aspectos, ele está sendo retratado como um vilão no momento, mas, na verdade, é uma pessoa de coração enorme." Antes de falar com a ESPN, Ovechkin respondeu a perguntas de repórteres sobre o vídeo com um tom de voz baixo e contido, antes de declarar: "Ok, vamos às perguntas sobre hóquei".
No vídeo de campanha exibido na Rússia no início deste mês, Ovechkin aparece ao lado de apoiadores do partido político de Putin, o Rússia Unida, enquanto o Ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, profere um monólogo alertando qualquer um que ataque a Rússia "com a espada" para "não esperar clemência: nós nos ergueremos juntos, como fazemos hoje". Ovechkin, vestindo uma camisa polo preta, permanece estoicamente atrás de Lavrov.
A participação de Ovechkin gerou críticas internacionais de opositores do regime, que iniciou uma ofensiva contra a Ucrânia em 2014 — expandida para uma invasão em larga escala em 2022 — resultando em mais de 1 milhão de baixas militares e civis. Em uma carta enviada à NHL nesta semana, o deputado Joe Wilson (Republicano da Carolina do Sul) pediu à liga que considerasse banir Ovechkin devido à sua participação no anúncio.
"Embora o Sr. Ovechkin tenha todo o direito de manter opiniões políticas pessoais, participar ativamente de material de campanha para o partido opressor de Putin, enquanto atua como capitão de uma franquia da NHL na capital do nosso país, levanta questões sérias sobre os padrões esperados dos jogadores que representam a Liga e suas comunidades", escreveu Wilson.
A NHL não respondeu a diversas solicitações de comentário feitas pela ESPN.
No início desta semana, o Capitals divulgou um comunicado observando que "Alex Ovechkin é um cidadão russo que vive em Moscou com sua família durante a intertemporada e viverá lá após sua aposentadoria", e que ele e a equipe estão "focados na próxima temporada e no impacto contínuo que ele exerce no gelo e em nossa cidade".
A série de anúncios de TV conta com a participação de mais de 30 apoiadores de Putin. Uma delas é Maria Lvova-Belova, uma autoridade russa envolvida no sequestro e na "reeducação" de crianças ucranianas. Em uma reunião televisionada com Putin, Lvova-Belova afirmou ter levado pessoalmente um menino ucraniano de Mariupol, cidade devastada pela guerra. O Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra ela em 2023. Ovechkin aparece ao lado dela e de outras pessoas em uma foto de grupo que integra os anúncios. Especialistas acadêmicos em propaganda russa afirmaram que a aparição de Ovechkin representa uma vitória crucial para Putin em sua tentativa de justificar a custosa campanha militar do país na Ucrânia. Autoridades ucranianas acusaram as forças armadas russas de assassinar mais de 17.000 civis ucranianos, incluindo mais de 700 crianças.
"Não se pode ignorar o fato de que a Rússia está perpetrando um genocídio contra o povo ucraniano", disse Sarah Oates, pesquisadora sênior na área de comunicação política e democratização da Universidade de Maryland. "Putin disse que a Ucrânia e os ucranianos não têm direito de existir. E essa é uma razão fundamental para a invasão. Ovechkin apoia Putin, apoia o regime russo e, isso significa que ele apoia o genocídio."
Questionado sobre as alegações de que a Rússia é responsável por um genocídio, Ovechkin disse à ESPN: "Espero que não, que não seja assim ...antes que ele e um representante de relações com a mídia encerrassem a entrevista.
Vitaly Kazakov, pesquisador de pós-doutorado em estudos de mídia e jornalismo na Universidade de Aarhus, na Dinamarca — cuja pesquisa se concentra na interseção entre a política russa e o esporte —, afirmou que os anúncios amplificam a narrativa estatal que isenta o Kremlin de responsabilidade moral em relação à Ucrânia.
"Isso faz parte de um esforço para atribuir a culpa não ao Estado russo, mas a forças externas", disse ele.
Em 2022, enquanto a comunidade esportiva internacional impunha sanções a atletas russos, a NHL apoiou os jogadores, destacando a "posição extremamente difícil" em que eles haviam sido colocados. Na ocasião, a liga declarou que os jogadores russos competem "em nome de seus clubes da NHL, e não em nome da Rússia".
Ovechkin não havia aparecido anteriormente em materiais de campanha do partido Rússia Unida, observou Kazakov.
Durante o evento de mídia do Capitals na quinta-feira, o técnico Spencer Carbery disse não acreditar que as críticas a Ovechkin afetariam sua posição na equipe.
"Eu o conheço tão bem quanto qualquer pessoa nesta organização e sei qual é a sua índole", disse Carbery. "Não vi o vídeo nem nada do tipo, mas sei de uma coisa: ele tem feito um trabalho incrível durante o tempo em que estou aqui. Eu gosto muito dele e de sua família, e ele é uma peça fundamental do nosso time. O fato de ele ser nosso capitão e a relação que tenho com ele como técnico aqui não são afetados por isso."
Ovechkin assinou o que se espera ser seu último contrato com a equipe — um acordo de um ano no valor de US$ 4,25 milhões — em 2 de julho, mais de dois meses antes de o anúncio ir ao ar na televisão russa.
O atacante nascido em Moscou — que em abril de 2025 superou o recorde histórico de gols de Wayne Gretzky — tem sido um apoiador constante, embora não necessariamente vocal, do presidente russo ao longo de sua carreira. Sua foto de perfil no Instagram mostra ele e Putin juntos, e ele participou de duas campanhas notáveis nas redes sociais em apoio à agenda do presidente. A campanha "Putin Team", de 2017, buscou impulsionar a popularidade do presidente entre os jovens do país. Em 2014, durante a invasão inicial da Rússia ao leste da Ucrânia, Ovechkin publicou uma foto no Instagram segurando um cartaz com a frase "#SALVEM AS CRIANÇAS DO FASCISMO". O slogan ecoava a retórica do Kremlin de que a invasão era uma forma de proteger os civis ucranianos. Mais tarde, Ovechkin afirmou que não pretendia fazer uma declaração política.

