O ouro de Clarisse Vallim nos Jogos Olímpicos da Juventude Dacar 2026 pode ser traduzido em uma palavra: felicidade. Depois de três vitórias por ippon, a judoca da categoria -78kg chegou ao lugar mais alto do pódio e garantiu a primeira medalha dourada do Time Brasil na competição. Mais do que ampliar uma coleção que já conta com dois títulos mundiais na categoria cadete, a conquista no Senegal ganhou significado especial para uma atleta que encontra no judô muito mais do que uma profissão.
Clarisse tinha apenas quatro anos quando vestiu um judogi pela primeira vez. Era tão pequena que hoje admite praticamente não guardar lembranças daquele começo. O que veio depois, no entanto, se confunde com a própria história da brasileira. Cresceu no tatame, fez amigos na modalidade e encontrou ali uma segunda família.
“O judô é tudo. Minha vida é o judô. Tenho amigos do judô, meio que criei uma família dentro dele. É meu lazer, hoje em dia é meu trabalho também. Acho que o judô é a minha vida”, resumiu.
A relação construída desde a infância ajuda a dimensionar o significado do ouro conquistado em Dakar. A temporada de 2026 foi intensa. Clarisse enfrentou atletas mais velhas, acumulou experiências em diferentes competições e sentiu também o desgaste provocado pela rotina de uma esportista de alto rendimento.
“Foi um ano muito duro. Fiz competições com pessoas mais velhas, tive várias experiências e é cansativo. É o que eu mais gosto, o que eu mais amo fazer na vida, mas ainda assim exige muito do corpo e da mente. É uma competição atrás da outra e, às vezes, não dá tempo nem de ver a família. São ossos do ofício, mas a gente vai se desgastando”, contou.
A preparação para Dacar aconteceu justamente nesse cenário. Aos poucos, porém, entre os treinamentos e a convivência com pessoas importantes em sua trajetória, Clarisse voltou a encontrar os motivos que a fazem colocar o judogi diariamente.
“Eu já estava cansada, mas fui me recuperando, encontrando pessoas de quem eu gostava e fui me lembrando por que amo fazer isso, por que gosto de fazer judô, por que treino todos os dias. Foi uma competição que me fez voltar a amar fazer judô, voltar a ficar feliz por colocar o quimono, querer treinar e fazer o que eu faço.”
Três lutas, três ippons e um ouro
Em Dacar, a resposta veio no tatame. Única representante do judô brasileiro nos Jogos, Clarisse venceu os três combates que disputou por ippon. Primeiro, superou Arba Hasanaj, de Kosovo. Na semifinal, levou a cubana Kayla Zorrilla ao chão e terminou o confronto com uma chave de braço.
Na decisão contra Anastasiia Dobrovolskaia, a brasileira precisou de paciência. O confronto permanecia sem pontuação quando, nos segundos finais, Clarisse encontrou espaço no chão para imobilizar a adversária e conquistar o ouro. Pouco antes da final, havia ouvido “Vai Dar Tudo Certo”, do Natiruts. A música acabou combinando com o desfecho do dia.
Mesmo depois de uma campanha perfeita em resultados, Clarisse fez uma análise madura da própria atuação. “Eu tive momentos bons, momentos mais ou menos, momentos ruins. Acho que o mais importante de tudo foi que consegui me restabelecer tanto nos momentos bons e continuar nos momentos ruins. Então, acho que fiquei feliz por isso. Consegui me superar durante a competição”, avaliou.
A tranquilidade foi especialmente importante na decisão. “Eu estava um pouco inferior no começo, mas consegui ter calma para aproveitar a posição no chão e deu tudo certo”, explicou.

