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“O sabor é de felicidade”: Clarisse Vallim celebra ouro especial em Dacar 2026

Bicampeã mundial cadete e única representante do judô brasileiro nos Jogos Olímpicos da Juventude, atleta da categoria -78kg venceu três lutas por ippon e conquistou o primeiro ouro do Time Brasil em Dacar 2026

Redação Surto Olímpico 5 min
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“O sabor é de felicidade”: Clarisse Vallim celebra ouro especial em Dacar 2026
Foto: Wander Roberto/COB

O ouro de Clarisse Vallim nos Jogos Olímpicos da Juventude Dacar 2026 pode ser traduzido em uma palavra: felicidade. Depois de três vitórias por ippon, a judoca da categoria -78kg chegou ao lugar mais alto do pódio e garantiu a primeira medalha dourada do Time Brasil na competição. Mais do que ampliar uma coleção que já conta com dois títulos mundiais na categoria cadete, a conquista no Senegal ganhou significado especial para uma atleta que encontra no judô muito mais do que uma profissão.

Clarisse tinha apenas quatro anos quando vestiu um judogi pela primeira vez. Era tão pequena que hoje admite praticamente não guardar lembranças daquele começo. O que veio depois, no entanto, se confunde com a própria história da brasileira. Cresceu no tatame, fez amigos na modalidade e encontrou ali uma segunda família.

“O judô é tudo. Minha vida é o judô. Tenho amigos do judô, meio que criei uma família dentro dele. É meu lazer, hoje em dia é meu trabalho também. Acho que o judô é a minha vida”, resumiu.

A relação construída desde a infância ajuda a dimensionar o significado do ouro conquistado em Dakar. A temporada de 2026 foi intensa. Clarisse enfrentou atletas mais velhas, acumulou experiências em diferentes competições e sentiu também o desgaste provocado pela rotina de uma esportista de alto rendimento.

“Foi um ano muito duro. Fiz competições com pessoas mais velhas, tive várias experiências e é cansativo. É o que eu mais gosto, o que eu mais amo fazer na vida, mas ainda assim exige muito do corpo e da mente. É uma competição atrás da outra e, às vezes, não dá tempo nem de ver a família. São ossos do ofício, mas a gente vai se desgastando”, contou.

A preparação para Dacar aconteceu justamente nesse cenário. Aos poucos, porém, entre os treinamentos e a convivência com pessoas importantes em sua trajetória, Clarisse voltou a encontrar os motivos que a fazem colocar o judogi diariamente.

“Eu já estava cansada, mas fui me recuperando, encontrando pessoas de quem eu gostava e fui me lembrando por que amo fazer isso, por que gosto de fazer judô, por que treino todos os dias. Foi uma competição que me fez voltar a amar fazer judô, voltar a ficar feliz por colocar o quimono, querer treinar e fazer o que eu faço.”

Três lutas, três ippons e um ouro

Em Dacar, a resposta veio no tatame. Única representante do judô brasileiro nos Jogos, Clarisse venceu os três combates que disputou por ippon. Primeiro, superou Arba Hasanaj, de Kosovo. Na semifinal, levou a cubana Kayla Zorrilla ao chão e terminou o confronto com uma chave de braço.

Na decisão contra Anastasiia Dobrovolskaia, a brasileira precisou de paciência. O confronto permanecia sem pontuação quando, nos segundos finais, Clarisse encontrou espaço no chão para imobilizar a adversária e conquistar o ouro. Pouco antes da final, havia ouvido “Vai Dar Tudo Certo”, do Natiruts. A música acabou combinando com o desfecho do dia.

Mesmo depois de uma campanha perfeita em resultados, Clarisse fez uma análise madura da própria atuação. “Eu tive momentos bons, momentos mais ou menos, momentos ruins. Acho que o mais importante de tudo foi que consegui me restabelecer tanto nos momentos bons e continuar nos momentos ruins. Então, acho que fiquei feliz por isso. Consegui me superar durante a competição”, avaliou.

A tranquilidade foi especialmente importante na decisão. “Eu estava um pouco inferior no começo, mas consegui ter calma para aproveitar a posição no chão e deu tudo certo”, explicou.

Quando a medalha finalmente foi colocada em seu pescoço, vieram à cabeça o esforço que a levou até Dakar e as pessoas que fizeram parte dessa caminhada.

“Senti muita gratidão pela torcida e pelas pessoas que me ajudaram a chegar até aqui. Acho que passa todo o esforço, tudo que eu fiz para chegar a esse momento. É muita felicidade.”

Família, samba e música

Se o judô ocupa grande parte da vida de Clarisse, é na família que ela encontra espaço para descansar dessa rotina. Por viajar constantemente para treinos e competições, procura aproveitar os períodos em casa para ficar próxima das pessoas que considera sua principal fonte de força.

“Fora do treinamento, procuro sempre passar tempo com a minha família. Viajo bastante, então, no tempo que tenho, tento estar com as pessoas de quem gosto. Acho que são elas que me fortalecem.”

E existe uma Clarisse diferente daquela que os adversários encontram nos tatames. Mais tímida nos primeiros contatos, ela conta que basta alguém quebrar o gelo para aparecer um lado mais expansivo.

“Normalmente sou um pouco tímida com as pessoas que não conheço, mas, quando a pessoa dá o primeiro passo, sou bem sociável. Rio bastante, faço muita piada. Sou mais aberta com a minha família."

É também da família que vem outra presença constante em sua vida: a música. O pai é sambista e compositor, enquanto a mãe também teve ligação com escolas de samba. Clarisse cresceu, portanto, cercada por música e desenvolveu um gosto bastante eclético. Mais do que escolher um único artista ou estilo preferido, ela associa canções a momentos da própria carreira.

“Meu pai é sambista, é compositor, então desde muito pequena tenho uma relação com o samba. Minha mãe também já teve relação com escolas de samba. Minha família sempre escutou muita música. Não sou muito a pessoa do cantor, sou a pessoa da música. Sou bem eclética. Para mim, cada competição tem uma música. Toda vez que lembro de uma competição, (a) relaciono com alguma música.”

Talvez por isso “Vai Dar Tudo Certo” tenha ganhado um lugar próprio na trilha sonora de sua jovem trajetória.

No fim, o objetivo que Clarisse leva de Dakar é tão simples quanto desafiador: continuar feliz. Ainda neste mês, ela terá o Mundial Juvenil pela frente, em Tashkent, no Uzbequistão, mas encara o próximo compromisso da mesma maneira que pretende construir os próximos passos da carreira, um treino de cada vez. “Quero continuar feliz fazendo o que eu faço. Gosto de dar o meu máximo nos treinamentos e nas coisas que estão ao meu alcance. Quero estar o mais preparada possível. O resultado vem de acordo com a preparação, então meu objetivo é sempre estar me capacitando e evoluindo dentro do judô.”

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#Clarissa Vallim#Dacar 2028#Brasil