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Surto Crítica - Novak Djokovic: O Lobo no Inverno

O documentário está disponível no Prime Video que explora a carreira, a mentalidade e a motivação do grande tenista Novak Djokovic.

eduardo.gigante 4 min
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Surto Crítica - Novak Djokovic: O Lobo no Inverno
Foto: Reprodução

Para certos “jovens”, o tênis nunca mais será o mesmo sem o Big Three. Claro, novos talentos surgiram, e vai saber se Sinner e Alcaraz ganharão a companhia de um terceiro rival de peso (olá, João Fonseca!). Ainda assim, nada chegará perto do espetáculo que Federer, Nadal e Djokovic (com uma menção mais do que honrosa a Andy Murray), nos proporcionaram ao longo de mais de duas décadas.

Djokovic, o último destes tenistas ainda em atividade, é o tema do novo documentário do Amazon Prime, “Novak Djokovic: O Lobo no Inverno”. O lobo, como nos contam logo no início, é o animal nacional da Sérvia. De certa forma, o animal também serve como símbolo do espírito de Djokovic ao longo dos anos. No começo da carreira, ele era um jovem faminto que caçava e devorava recordes. Agora, enquanto contempla a aposentadoria, seu físico pode até começar a dar sinais de cansaço, mas, como todo velho lobo, ele não perdeu o faro.

Grande parte do documentário gira em torno de quando*, ou se, Djokovic vai finalmente pendurar a raquete. É bem que verdade que Novak é extremamente sincero sobre seus sentimentos. Ele reconhece que, embora a quadra ainda seja o lugar onde se sente mais em paz, o tênis já não é a coisa mais importante da sua vida. Ele admite que está cada vez mais difícil se despedir dos filhos a cada nova turnê pelo circuito.

No entanto, quando conquistou a tão sonhada medalha de ouro em Paris-2024 – evento que, para a alegria dos surtados, ganha um generoso tempo de tela – e muitos acharam que ele finalmente encerraria a carreira, incluindo sua esposa, ele rapidamente mudou o foco para ampliar seu próprio recorde de títulos de Grand Slam. E embora não vença um Major desde 2023, a sensação é de que, saúde permitindo, outro título é apenas uma questão de tempo.

O que move Novak? Melhor ainda: quem é Novak Djokovic? São essas duas perguntas que impulsionam o documentário, que adota um estilo semelhante ao da série documental “Rafa”, da Netflix, ao cronometrar o que seria o (suposto) último ano do atleta enquanto entremeia sua história de vida. Mas, ao contrário de Nadal (que, fora as cenas de arquivo, aparece em apenas uma entrevista) e Federer (que nem é entrevistado), a personalidade e o estilo de jogo de Novak são difíceis de rotular, e suas origens não poderiam ser mais opostas.

Enquanto Federer e Nadal tiveram infâncias relativamente tranquilas, a de Djokovic foi moldada pelas Guerras da Iugoslávia e pelos bombardeios da OTAN em Belgrado. Em um trecho angustiante, ele relembra como, aos quatro anos de idade, precisou fugir do apartamento com a família para buscar abrigo enquanto bombas caíam em um hospital próximo. No meio do caos, ele escorregou e por pouco não foi deixado para trás.

Essas campanhas militares incutiram nos sérvios o sentimento de Inat, um conceito traduzido como uma teimosia visceral, uma recusa desafiadora em se render diante de forças desproporcionais. É uma característica que definiu a carreira de Novak. Como observa seu ex-treinador Andre Agassi, outro famoso "bad boy" do tênis e o depoimento mais fascinante da produção, por mais gentil e afetuoso que Novak seja fora das quadras, lá dentro ele precisa se alimentar da hostilidade da torcida para afiar seu foco.

Essa infância roubada e a necessidade de jogar tênis como meio de sobrevivência deram a Novak sua personalidade eclética, combinando uma competitividade feroz com um espírito brincalhão, quase infantil. Uma ludicidade que o establishment do tênis muitas vezes interpreta mal como desrespeito, especialmente quando comparada à postura de Federer e Nadal, tratados por todos como os lordes e custódios do esporte.

Pelo andar da carruagem desta crítica, você já deve ter percebido que o documentário também abraça o ethos do "eu contra o mundo" de Novak. Essa dinâmica fica ainda mais evidente no segmento sobre o Aberto da Austrália de 2022, quando Djokovic foi detido e posteriormente deportado por não ter se imunizado contra o vírus da COVID-19.

Novak argumenta que tinha uma isenção válida por ter contraído o vírus duas vezes nos meses anteriores ao torneio, sustentando que, não fosse por um post mal calculado no Instagram e por politicagem local, teria jogado. É um argumento convincente, porém duvidoso e, e embora Djokovic mereça elogios por encarar a controvérsia de frente, sua defesa de que não é "antivax", mas apenas "muito preocupado com a saúde", soa superficial, especialmente quando nos lembramos do torneio de exibição que ele organizou no auge dos lockdowns em 2020, episódio convenientemente omitido aqui.

Apesar da abertura de Djokovic em tópicos selecionados, este continua sendo um projeto rigidamente controlado. A sensação constante é de que o biografado deu a palavra final na montagem. Esse "dedo na balança" tira um pouco do interesse da obra, que no fim das contas não responde a todas as perguntas que propõe. Ainda assim, oferece um olhar rico sobre o universo de "Djoko" ao longo de 90 minutos ágeis e divertidos.

Os fãs de Djokovic vão sair da sessão amando-o ainda mais; já os haters talvez terminem odiando-o um pouco menos. Seja como for, como Agassi e os diretores deixam claro, é impossível ficar indiferente ao lobo.

* Desde que o documentário foi lançado, Djokovic informou à imprensa que pretende jogar até os jogos olímpicos de Los Angeles-2028. A ver se ele irá - ou se conseguirá - manter esta promessa.

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#Novak Djokovic#Crítica#O Lobo no Inverno