Lançada em 2021, Untold é uma série documental de esportes da Netflix que se propõe a revelar a "história real" por trás de escândalos famosos do esporte (em sua maioria estadunidenses) — como a máfia das apostas na NBA em 2007 — e de atletas polêmicos, como a goleira Hope Solo, também dos Estados Unidos. Recentemente, a produção voltou seus refletores para Rachael Louise Gunn, conhecida competitivamente como “Raygun”, e que viralizou como a dançarina de breaking australiana cujas apresentações nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 receberam críticas generalizadas pelo que muitos consideraram uma performance amadora.
As críticas não vieram apenas de internautas curiosos, mas de jornalistas respeitados. Stuart Heritage, do The Guardian, comparou a apresentação de Raygun a “uma criança se debatendo ao fazer birra no supermercado”. Já a agência de notícia britânica Reuters descreveu como “falha e fracasso”. Ainda que tenha recebido posterior apoio de peso, como da chefe da equipe australiana Anna Meares, do juiz de breaking Martin Gilian e da Federação Mundial de Dança Esportiva (WDSF), o fato é que em Paris 2024 a australiana foi eliminada perdendo todas as suas batalhas sem pontuar. Mas isso não significa que ela não venceu.
Lembro que, na época, circularam muitas histórias — nenhuma delas muito edificantes — sobre como Raygun, uma professora universitária de 36 anos que praticava o breaking necessariamente como um hobby, conseguiu vaga em Paris. E mais: ela foi representar a Austrália, um país de 27 milhões de habitantes com um histórico respeitável de conquistas olímpicas.
Como era de se esperar, o documentário começa com a tradicional narrativa sobre a infância da atleta. Mas logo de cara dá para perceber que Rachael não é uma atleta comum: ela não nasceu em uma família de esportistas nem cresceu focada em uma modalidade específica. Pelo contrário, veio de uma família típica da classe média australiana e, embora tenha feito aulas de dança, sapateado e jazz quando criança, era pura diversão. Ela só foi conhecer o breaking em meados dos anos 2010, na faculdade, por meio do dançarino Samuel Free (com quem acabou se casando). Inclusive, um dos pontos altos do documentário é ver como os dois continuam apaixonados e o quanto Free — que atende pelo nome de b-boy "Sam Free" — a adora e faz de tudo para vê-la feliz.
Por mais que Raygun praticasse o breaking, ela sempre o encarou tanto como hobby quanto como objeto de estudo — a ponto de concluir seu doutorado pesquisando a cultura da dança na Universidade Macquarie. Por volta dessa época, em meados dos anos 2010, quando Paris foi anunciada como sede dos Jogos de 2024 e o breaking entrou como esporte de exibição, ela decidiu tentar a sorte na seletiva para a vaga da Oceania.
É bem verdade que, embora até suas rivais reconheçam que ela se movimente bem, seria um exagero chamá-la de atleta de nível olímpico ou de uma b-girl de elite. Ela é uma dançarina razoável, mas que passa longe das manobras acrobáticas complexas e dos movimentos de alto impacto que costumam dominar as competições de alto nível. De qualquer forma, quando chegou a hora de escolher a representante da Oceania para Paris, Raygun resolveu arriscar.
E é aqui que o filme revela o seu dado mais chocante: ela venceu a seletiva de forma absolutamente legítima. Como explica o diretor da Federação Australiana de Breaking, simplesmente não há muitas b-girls na Austrália. Para piorar, as poucas que realmente tinham nível técnico decidiram boicotar as seletivas por objeção moral à transformação do breaking em esporte olímpico — para elas, trata-se de uma arte, não de uma competição atlética.

