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Surto Critica - Untold: Raygun — Deu Ruim no Breaking

Série está disponível no canal de streaming NETFLIX

eduardo.gigante 6 min
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Surto Critica - Untold: Raygun — Deu Ruim no Breaking
Foto: AP/Frank Franklin

Lançada em 2021, Untold é uma série documental de esportes da Netflix que se propõe a revelar a "história real" por trás de escândalos famosos do esporte (em sua maioria estadunidenses) — como a máfia das apostas na NBA em 2007 — e de atletas polêmicos, como a goleira Hope Solo, também dos Estados Unidos. Recentemente, a produção voltou seus refletores para Rachael Louise Gunn, conhecida competitivamente como “Raygun”, e que viralizou como a dançarina de breaking australiana cujas apresentações nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 receberam críticas generalizadas pelo que muitos consideraram uma performance amadora.

As críticas não vieram apenas de internautas curiosos, mas de jornalistas respeitados. Stuart Heritage, do The Guardian, comparou a apresentação de Raygun a “uma criança se debatendo ao fazer birra no supermercado”. Já a agência de notícia britânica Reuters descreveu como “falha e fracasso”. Ainda que tenha recebido posterior apoio de peso, como da chefe da equipe australiana Anna Meares, do juiz de breaking Martin Gilian e da Federação Mundial de Dança Esportiva (WDSF), o fato é que em Paris 2024 a australiana foi eliminada perdendo todas as suas batalhas sem pontuar. Mas isso não significa que ela não venceu.

Lembro que, na época, circularam muitas histórias — nenhuma delas muito edificantes — sobre como Raygun, uma professora universitária de 36 anos que praticava o breaking necessariamente como um hobby, conseguiu vaga em Paris. E mais: ela foi representar a Austrália, um país de 27 milhões de habitantes com um histórico respeitável de conquistas olímpicas.

Como era de se esperar, o documentário começa com a tradicional narrativa sobre a infância da atleta. Mas logo de cara dá para perceber que Rachael não é uma atleta comum: ela não nasceu em uma família de esportistas nem cresceu focada em uma modalidade específica. Pelo contrário, veio de uma família típica da classe média australiana e, embora tenha feito aulas de dança, sapateado e jazz quando criança, era pura diversão. Ela só foi conhecer o breaking em meados dos anos 2010, na faculdade, por meio do dançarino Samuel Free (com quem acabou se casando). Inclusive, um dos pontos altos do documentário é ver como os dois continuam apaixonados e o quanto Free — que atende pelo nome de b-boy "Sam Free" — a adora e faz de tudo para vê-la feliz.

Por mais que Raygun praticasse o breaking, ela sempre o encarou tanto como hobby quanto como objeto de estudo — a ponto de concluir seu doutorado pesquisando a cultura da dança na Universidade Macquarie. Por volta dessa época, em meados dos anos 2010, quando Paris foi anunciada como sede dos Jogos de 2024 e o breaking entrou como esporte de exibição, ela decidiu tentar a sorte na seletiva para a vaga da Oceania.

É bem verdade que, embora até suas rivais reconheçam que ela se movimente bem, seria um exagero chamá-la de atleta de nível olímpico ou de uma b-girl de elite. Ela é uma dançarina razoável, mas que passa longe das manobras acrobáticas complexas e dos movimentos de alto impacto que costumam dominar as competições de alto nível. De qualquer forma, quando chegou a hora de escolher a representante da Oceania para Paris, Raygun resolveu arriscar.

E é aqui que o filme revela o seu dado mais chocante: ela venceu a seletiva de forma absolutamente legítima. Como explica o diretor da Federação Australiana de Breaking, simplesmente não há muitas b-girls na Austrália. Para piorar, as poucas que realmente tinham nível técnico decidiram boicotar as seletivas por objeção moral à transformação do breaking em esporte olímpico — para elas, trata-se de uma arte, não de uma competição atlética.

Resultado: Raygun venceu. Em seguida, veio o banho de realidade de que ela seria atropelada nos Jogos. Como já mencionado, faltava-lhe o atletismo exigido naquele patamar. Diante desse cenário, ela e o marido traçaram uma meta modesta: tentar arrancar pelo menos um ponto dos juízes. Para isso, apostaram tudo no quesito "originalidade" — um dos critérios de avaliação — incorporando passos tipicamente australianos, com destaque para a dança do "irrigador de jardim" (*the sprinkler*). O objetivo era focar na criatividade e evitar o vexame de voltar para casa com nota zero.

No entanto, naquela que é, admito, a parte mais fraca do documentário, ela passa a sofrer uma pressão esmagadora que, por não ser uma atleta profissional, não tinha o menor preparo para encarar. Quando chega aos Jogos, com a arena lotada e celebridades do calibre de Snoop Dogg na primeira fileira, o pânico toma conta. Ela decide levar a coreografia ao extremo e, assim, nasce a infame "dança do canguru".

Ninguém controla o que viraliza. O documentário deixa claro que Raygun jamais teve a intenção de virar meme ou de desrespeitar a cena do breaking; ela só queria dar o seu melhor. Embora eu ache que o filme pegue um pouco leve demais com ela ao analisar o estrago que isso gerou, é difícil não simpatizar com a figura humana. Ela e o marido transparecem ser pessoas genuinamente agradáveis, bem-intencionadas e simpáticas. Os pais dela também aparecem bastante — fofos, prestativos e torcendo pela filha, embora totalmente conscientes de quão bizarro é todo aquele circo.

O filme não aprofunda as polêmicas como se esperaria. Há pouca discussão séria sobre como a atuação dela enterrou a credibilidade do breaking nas Olimpíadas (mesmo tendo sido apenas um bode expiatório, sejamos sinceros). Ainda assim, ela sai do documentário como uma figura carismática. No fim das contas, a maior surpresa da produção é a completa ausência de mistério. Às vezes nos recusamos a aceitar a explicação mais óbvia: coisas aleatórias simplesmente acontecem.

Como alguém como a Raygun foi parar nas Olimpíadas? A Austrália não tem um celeiro de b-girls competitivas. Eles podem até ser uma potência olímpica na natação, mas passam longe de ter tradição em diversas outras modalidades — futebol masculino, ginástica e handebol, para citar algumas. Acontece que ela pegou uma seletiva fraca e ganhou honestamente.

Se há um culpado nessa história, a responsabilidade maior cai sobre o Comitê Olímpico Internacional e sua obsessão em ter todos os cantos do planeta representados nos Jogos. Basta lembrar de Eric "a Enguia" Moussambani na prova dos 100 metros livres em Sydney 2000: foi corajoso ou irresponsável colocar um atleta que nunca tinha nadado numa piscina olímpica de 50 metros para competir nos Jogos? O COI deveria fechar o cerco nos índices mínimos para garantir apenas atletas de elite? Por outro lado, se a essência das Olimpíadas é a inclusão global, talvez tenhamos que aceitar desempenhos bem abaixo da média vindo de países sem tradição na modalidade.

Como era de se prever, Rachael foi alvo de uma onda avassaladora de ataques e misoginia na internet após os Jogos. Em uma reviravolta inusitada, ela encontra refúgio graças ao bilionário Richard Branson, isolando-se em sua ilha particular para se recuperar do massacre público. O filme termina em tom otimista, pintando Rachael como uma espécie de embaixadora do esporte.

Ainda assim, não podemos fechar os olhos para o fato de que sua passagem por Paris — por mais involuntária que tenha sido — ajudou a diminuir as chances de o breaking se consolidar como esporte olímpico, o que é uma pena. Embora a modalidade já tenha pleiteado uma vaga para os Jogos de Brisbane em 2032, nos resta torcer para que a próxima representante australiana entregue algo além da dança do irrigador no palco.

Entretanto, vale mencionar que o breaking consta em algumas competições internacionais relevantes, como os Jogos Olímpicos da Juventude, os Jogos Asiáticos e os Jogos Sul-americanos, o que mantém a esperança dos mais otimistas em rever o esporte no maior palco esportivo do mundo.

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#Breaking#Raygun#Austrália#Surto Critica