Coluna Coelho Olímpico – Milão Cortina na TV: maior cobertura da história da Globo foi digna de pódio, mas não de ouro

Com Brasil em novo patamar, Olimpíada de Inverno merecia tratamento ainda melhor

Foto: Divulgação
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Por Lucas Felix

“Histórico” é um adjetivo cada vez mais frequente nas manchetes de qualquer editoria, uma tendência acentuada na era das redes sociais e especialmente recorrente na área esportiva. O uso, contudo, costuma ser relativo. Em uma Olimpíada então, não necessariamente a História escrita por uma nação ou uma modalidade será compartilhada pelas demais. Há exceções, contudo. Uma delas aconteceu nos Jogos de Inverno de Milão Cortina. Não há entusiasta olímpico ao redor do mundo que não veja a razão na classificação da historicidade do ouro de Lucas Pinheiro Braathen no slalom gigante. Uma conquista do tamanho da montanha de Bormio e que vai muito além dos 2 minutos e 25 segundos cravados e eternizados. 

É o uniforme da cerimônia de abertura e não o esqui que estará no Museu do COI, por exemplo. Mas não estamos aqui para falar de moda, muito menos do samba gingado por Lucas no pódio (embora devamos reconhecer que foi melhor do que certa influenciadora digital). A coluna surge para resumir a cobertura midiática da conquista do brasileiro e dos Jogos como um todo. 

É fato que a Globo realizou a sua maior cobertura de todos os tempos para os Jogos de Inverno. Milão Cortina teve um tratamento melhor da emissora do que qualquer edição de Jogos Pan-Americanos além do Rio 2007 e do que qualquer edição paralímpica até a atualidade, incluindo a Rio 2016 (o que se espera que seja diferente em Los Angeles, claro). Um feito e tanto! A transmissão da cerimônia de abertura ao vivo na íntegra foi um marco e permitiu que a sequência de eventos transmitida chegasse na grade de programação vespertina, substituindo a Sessão da Tarde, de uma maneira natural para o público da faixa. A escalação de Gustavo Villani e Natália Nara, dois narradores do primeiro time do grupo, também ajudou na fácil assimilação sobre a relevância do evento. 

Mas se eram dois narradores dedicados (mesmo que não integralmente, de maneira desnecessária) aqui, eram apenas três equipes de reportagem dedicadas ao evento na Itália. E precisando se desdobrar entre múltiplas sedes, TV aberta e SporTV, provas ao vivo e VTs dos telejornais… A conta, claro, não fechou. Os enviados trabalharam (e muito), mas podiam ter sido auxiliados pela equipe geral do escritório de Londres, por exemplo, ao menos na cobertura do ouro de Lucas Pinheiro. Naquele 14 de fevereiro, apenas Guilherme Roseguini esteve em Bormio pelo braço televisivo global. Na recente cobertura do Globo de Ouro, a rede deslocou dois correspondentes se dividindo nas funções em Los Angeles. 

Também fez falta a presença de um nome que pudesse ancorar o fechamento das transmissões bem no começo do horário nobre brasileiro, como a Cazé TV fez com Fernanda Gentil (que teve seus melhores momentos quando se viu livre do elenco de apoio que tentava transformar um programa com elementos divertidos em um puramente humorístico). 

Se faltou gente, também faltou sensibilidade da programação na cobertura da conquista dourada. Embora não fosse exatamente assegurada, ela era esperada. Na primeira descida de Lucas, até a rede nacional se contentou em acompanhar uma tela dividida, quando as praças além de São Paulo poderiam ter visto a imagem cheia da Itália por cerca de dois minutos sem nenhum grande prejuízo para o entendimento do desfile das escolas de samba no Anhembi. 

Não se trata de querer o braço após a Globo dar a mão, mas de lidar com uma disputa de medalha olímpica da maneira que a própria rede historicamente faz com os Jogos de Verão. Mais tarde, a folia carnavalesca vitimou o feito de Lucas de maneira ainda mais forte em Pernambuco. A emissora própria recifense da Globo simplesmente não transmitiu a segunda descida ou mesmo o pódio em prol do desfile do Galo da Madrugada, que ocorre por horas a fio sem um grande momento específico. 

Na rede nacional, o É de Casa voltou a se mostrar um dementador de momentos históricos. Entre a primeira entrevista de Lucas como campeão olímpico e o pódio para receber a medalha, o programa tocou a sua vidinha normalmente. Entre as pautas faladas nesse intervalo, chegou a comentar sobre a novela Vai Na Fé, de 2023. Foi um inegável erro condenar a conquista a ser um flash dentro do matinal e não uma transmissão própria ininterrupta. Se em coberturas puramente jornalísticas poderia ser alegada a questão comercial, dessa vez parece ter sido apenas pura falta de senso. 

Entre outros equívocos da cobertura, esteve a concentração de eventos apenas no SporTV 2 nos primeiros dias de competição. Somente com a repercussão negativa entre o público (e os números significativos da Cazé TV na internet) é que provas simultâneas passaram a ganhar espaço também nos canais 1 e 3, uma obviedade que devia ter sido calculada desde o princípio. 

Na internet, aliás, depois da GE TV se mostrar competitiva no Mundial de Clubes, a Olimpíada de Inverno trouxe a constatação de que o teto e o piso são métricas bem diferentes. Com mais estrutura e variedade de transmissões, a concorrente da LiveMode se mostrou alguns passos além na formação de uma comunidade própria que garante uma base de audiência espontânea independente do impulsionamento do conteúdo. 

Não ajudou, claro, que a própria TV Globo pouco tenha falado da GE TV quando se referia aos Jogos. Ao contrário do que fez nas vésperas da final do campeonato de futebol americano dos Estados Unidos. O Super Bowl, mesmo durando apenas uma noite, ainda se tornou alvo de divulgação no Big Brother Brasil, uma ação que não foi repetida com a competição olímpica de duas semanas de duração. 

Entre os méritos da cobertura, esteve o bom boletim Nevou na Globo. Daniel Pereira e Lais Souza estiveram entrosados guiando os principais destaques do dia olímpico. O problema é que a emissora pareceu considerar que o programete tirava a responsabilidade de que o Jornal Nacional trouxesse os destaques com a sua linguagem própria. Dessa forma, o principal telejornal do país habitualmente mostrou apenas um VT olímpico diário, sem ampliar os resultados das demais competições nem mesmo através de notas cobertas. Eventos relevantes, como a patinação artística, acabaram simplesmente ignorados pelo JN. E isso não apenas nos dias de compreensível ajuste da programação pelo Carnaval. 

No Globo Esporte, o tempo do noticiário olímpico também foi diminuto diante do cenário em que duas horas após o encerramento da atração habitualmente se iniciaria uma transmissão ao vivo das provas. Já o Esporte Espetacular, mesmo com espaço de sobra para encaixar transmissões de competições, não deu a elas um espaço muito diferente do dedicado nos dias úteis pelo Encontro e pelo Mais Você. 

A comparação com outras modalidades também indica um desprestígio da competição gelada. Enquanto o piloto de Fórmula 1 Gabriel Bortoleto, que ainda não desponta como favorito em 2026, ganha um perfil completo (com justiça) no EE nas semanas que antecedem o início do campeonato mundial da categoria, o documentário sobre Lucas Pinheiro não foi condensado na atração nem mesmo depois do seu ouro. Restou apenas uma chamada sobre a presença do conteúdo no Globoplay. 

Voltando um pouco mais no tempo, a Retrospectiva de 2025 do jornalismo da Globo deu um amplo destaque para o tenista João Fonseca no segmento das vitórias esportivas. A grande conquista do atleta no ano em questão foi um ATP 500, torneio que figura atrás dos grand slams, dos Jogos Olímpicos, dos Masters 1000 e do Finals na modalidade. Lucas Pinheiro, campeão de uma etapa da Copa do Mundo (torneio menor apenas que a Olimpíada e o Mundial no esqui slalom), foi então completamente ignorado. 

O tênis, aliás, também foi evocado por Gustavo Villani ao fazer paralelos sobre Lucas e outros ídolos do esporte brasileiro na sua narração. Ao falar sobre estrelas das manhãs de domingo, contudo, o narrador esqueceu logo da mais atual delas: a skatista Rayssa Leal. A outrora Fadinha, inclusive, conquistou uma etapa da liga mundial da modalidade na Austrália justamente naquele mesmo sábado épico. O lapso, claro, não atrapalha o saldo da narração emocionante. Também foi brilhante a condução de Paulo Andrade no SporTV. Depois de anos narrando o Campeonato Inglês de futebol no emprego anterior, é bom ver a emoção dele a serviço do Brasil. 

Não é por acaso que ambas foram muito bem reprisadas pelos canais. A de Villani até mesmo no encerramento do Jornal Nacional, uma deferência rara. Uma prova de que se sabe que há um nome geracional pronto para ser trabalhado ao longo do ciclo, com o esporte de inverno deixando de ser um assunto meramente quadrienal. Lucas, vale lembrar, está com apenas 25 anos. Que venham os Alpes Franceses em 2030! Mas que venham também tantas outras provas antes!

Redação Surto Olímpico

Redação Surto Olímpico

Desde 2011, vivendo os esportes olímpicos e paralímpicos com intensidade o ano inteiro. Estamos por trás de cada matéria, cobertura e bastidor que conecta atletas e torcedores com informação acessível, atualizada e verdadeira.
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