Japão aumenta repressão em relação ao abuso online contra os atletas do país

O Comitê Olímpico do país monitorou os abusos durante os Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão Cortina

Foto: REUTERS
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O Japão anunciou que vai aumentar a repressão em relação aos abusos online cometidos contra os atletas do país.

A cinco meses dos Jogos de Aichi-Nagoya, as autoridades esportivas do país asiático estão intensificando o monitoramento da internet e o apoio jurídico para proteger seus atletas após detectarem milhares de mensagens ofensivas.

A medida é uma resposta a um problema que afeta o esporte mundial há anos e que deixa marcas no desempenho, na saúde mental e até mesmo na continuidade de algumas carreiras, pois a pressão nas redes sociais não só expõe os competidores à hostilidade constante, como, nos casos mais graves, os faz temer por sua segurança. No Japão, onde a resposta institucional chegou mais tarde do que em outros contextos, a questão começou a ser enfrentada com uma estratégia mais ambiciosa.

O ponto de virada foi a experiência do Comitê Olímpico Japonês durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, realizados em fevereiro. Como relata a Agence France-Presse, uma unidade dedicada foi criada para rastrear postagens direcionadas a atletas japoneses, com seis pessoas trabalhando em Milão e outras 22 em Tóquio em turnos ininterruptos, utilizando tanto buscas manuais quanto sistemas de inteligência artificial.

A estrutura também operou em coordenação com a Meta, proprietária do Instagram, Facebook e WhatsApp, e com a empresa japonesa LINE Yahoo.

O volume detectado por si só demonstra a dimensão do problema. A equipe solicitou a remoção de quase 2.000 mensagens e conseguiu que cerca de 600 fossem retiradas, menos de um terço do total. Mesmo assim, figuras dentro do Comitê Olímpico Japonês (JOC) afirmam que a operação possibilitou mensurar com mais precisão uma forma de violência digital que muitas vezes era percebida, mas não quantificada.

Misa Chida, uma das funcionárias do comitê, resumiu o impacto desse assédio ao declarar à AFP: “Até mesmo um único comentário negativo pode ferir profundamente”. Ela acrescentou: “Os atletas não querem ver esse tipo de coisa, então muitos optam por não acessar as redes sociais, o que significa que perdem os 99% das mensagens de apoio. É uma verdadeira lástima”.

Essa experiência não será um caso isolado. O Comitê Olímpico Japonês (JOC) planeja repetir a operação durante os Jogos Asiáticos, que serão realizados em Nagoya e na região metropolitana de Aichi. Os organizadores também implementarão um programa mais amplo, visando proteger não apenas os representantes locais, mas também os atletas de todos os países participantes.

O dirigente do JOC, Hirofumi Takeshita, declarou à agência de notícias que esse processo de aprendizado já mudou a forma como a entidade entende o problema. “Agora entendemos que tipo de comentários surgem diariamente e como eles afetam os atletas”, afirmou. “Aprendemos quanta energia precisamos dedicar a isso.”

O Japão não está começando do zero, mas também não está liderando essa resposta. O Comitê Olímpico Internacional já implementou um sistema semelhante em mais de 35 idiomas durante os Jogos de Paris 2024, e o esporte profissional testou fórmulas comparáveis ​​em outras modalidades.

Para Chida, a mera existência desses mecanismos tem um efeito preventivo sobre os competidores e as equipes que trabalham com eles. “À medida que a conscientização sobre essas iniciativas aumenta entre atletas, equipe técnica e todos que trabalham no local, isso por si só contribui para uma maior sensação de segurança psicológica”, disse ela.

A outra principal linha de ação é recorrer aos tribunais. O advogado Shun Takahashi lidera um grupo jurídico de sete membros, criado em 2024 para auxiliar atletas assediados nas redes sociais, uma estrutura que ele próprio descreveu à AFP como um “porto seguro” para profissionais que muitas vezes não se sentem à vontade para falar sobre o problema.

Em seu relato, ele afirma: “Eles temem que demonstrar vulnerabilidade possa levar um técnico a deixá-los no banco de reservas ou que outros os vejam como fracos. Muitos atletas são criados com a ideia de que devem ser sempre fortes e não querem ser percebidos de outra forma.”

Essa equipe apoiou o jogador profissional de beisebol Taiki Sekine, que no ano passado processou vários de seus assediadores. Entre as mensagens que recebeu, havia uma particularmente brutal: “Espero que toda a sua família morra em um acidente”. Desde então, ele obteve diversos acordos e apresentou queixas-crime nos casos mais graves, segundo a AFP.

Takahashi ressaltou que esse tipo de caso é mais fácil de resolver por se tratar de uma questão ocorrida no Japão, enquanto o assédio que ultrapassa fronteiras apresenta obstáculos jurisdicionais muito mais complexos. O advogado acredita, em todo caso, que a via legal já está enviando um sinal dissuasor para alguns desses agressores, muitos deles adolescentes ou jovens na faixa dos vinte anos. Em sua opinião, processos judiciais e denúncias criminais introduzem uma noção de risco que antes não existia. “Isso os faz perceber o risco envolvido”, disse ele, após argumentar que recorrer aos tribunais tem um “efeito dissuasor” sobre os trolls.

Apesar dessa mudança, aqueles que trabalham diretamente com o problema reconhecem que ainda há um longo caminho a percorrer. Takeshita afirmou que as grandes empresas de tecnologia têm sido “muito cooperativas”, mas também que seus critérios para determinar o que é conteúdo ofensivo nem sempre coincidem com os do comitê japonês.

“Sim, havia uma lacuna, mas foi uma lacuna que conseguimos identificar ao realizar este trabalho”, disse ele. “Isso é melhor do que ter uma lacuna não identificada que nunca será preenchida. Agora que sabemos onde estão as diferenças, podemos trabalhar para eliminá-las.”

Regys Silva

Regys Silva

O surtado original. Criador do site em 2011 e louco pelas disputas da final olímpica do badminton até a final C do skiff simples do remo.Cearense e você pode me achar em Regys_Silva
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