Esta semana, o Surto Olímpico entrevistou com exclusividade a halterofilista Brenda Pepe, que irá fazer parte da delegação brasileira no Parasul de Valledupar. Brenda também falou das passagens pelo curling em cadeira de rodas e pela natação.
Confira abaixo a entrevista na íntegra com Brenda Pepe:
SO: Brenda, gostaria de começar essa entrevista perguntando sobre a relação nutrição-esporte: para um esporte que demanda bastante fisica e psicologicamente falando como o halterofilismo, o quão estar inserida no mundo da nutrição pode intensificar ainda mais essa relação?
Brenda: A nutrição tem uma ligação bem grande com a atividade física. Brincamos no mundo esportivo que o atleta é composto de três pilares: treino, descanso e boa alimentação. E ainda há o quarto, que é a saúde mental. A nutrição está muito ligada a performance, geração de energia e recuperação muscular. E muito mais ligada a esportes de força, porque ela entra na saúde mental. Eu sou da 45 – categoria baseada no peso -, mas o meu perfil físico é de uma pessoa com 47 ou 48kg, então eu sofro com restrições alimentares para caber na categoria que é boa pra mim. Então eu hoje sei na prática o que é a nutrição comportamental para um atleta, pois tenho que lidar com questões emocionais para evitar compulsões.
SO: E o halterofilismo tem disso, de você talhar a saúde mental. Nesse começo de carreira, como você conseguiu lidar com o emocional?
Brenda: Eu tive uma carreira grande na natação, foram mais de dez anos nadando, e quando eu dei a pausa na natação por problemas pessoais eu descobri que o psicológico era um fator que eu não tinha e precisava ter. A partir do momento que entrei no halterofilismo, comecei terapia com psicólogo, acompanhamento com médico do esporte que pensa na saúde mental. Sempre que necessário, ele entra com medicação voltada pro psicossomático. E aí eu percebi que talvez o psicológico tenha me faltado muito no começo da carreira. Eu trouxe a maturidade de uma época que não tinha e desenvolvi, e passei a trabalhar de forma adequada, tanto na nutrição comportamental, no que e como vou comer, qual gatilho tenho para evitar excesso, entrando com medicação sempre que necessário.
SO: Como o esporte surgiu na sua vida?
Brenda: Eu tenho uma deficiência congênita, nasci com uma má formação na coluna e nos membros inferiores, fiz dez anos de fisioterapia numa instituição pública de São Paulo, e eles perceberam que eu estava bem adaptada, não tinha limitações, e eles sugeriram que eu entrasse na natação. Era um esporte mais completo e que manteria os resultados que eu tinha. Fiquei mais de dez anos nadando e competindo em alto rendimento, ganhei uma bolsa de estudos por ser atleta e virei nutricionista por isso. Meados de 2020, dei uma pausa de vez por motivos pessoais. Só que esses motivos pessoais estavam mais ligados ao fundo emocional, e aí eu percebi que precisava voltar a treinar. Minha avó me incentivou a voltar pro esporte e aí voltei ao crossfit, que já fazia por fortalecimento. Já estava com algumas problemas por ter que levantar, deitá-la e virá-la. No crossfit, tive um ganho de força no Supino muito rápido. E em menos de três meses, um coach que é muito amigo meu me sugeriu: entre no halterofilismo. ”Cê” foi boa muito tempo na natação, mas seu talento é no halterofilismo. Entrei em contato com alguns conhecidos, me indicaram para o Centro de Treinamento Paralímpico. Fiz testes, e lá perceberam que eu seria a segunda melhor na categoria 45kg, e que talvez eu entrasse pra Seleção muito rápido, com a evolução que eu poderia ter.

SO: Você passou também pelo curling em cadeira de rodas, não é? Conte pra gente um pouco sobre.
Brenda: O curling em cadeira de rodas surgiu por um convite de um técnico do triatlo e de natação, o Tiago Borgate, em 2021, durante a pandemia. Ele sabia do meu quesito com a minha avó. ”Acho que você vai curtir, ter um tempo pra você.” Entrou mais como um hobby na minha vida, eu treinava de sábado no Morumbi e logo a gente formou um time de paracurling, disputamos campeonatos nacionais e tivemos uma ascensão muito grande. E aí em 2024, eu tive o convite para a seleção, mas renunciei porque calhou com o halterofilismo e aí como o paracurling tem temporadas, optei por continuar no halterofilismo.
SO: Quanto tempo você passou no paracurling?
Brenda: Eu ainda faço parte, estou desde 2021, paramos em 2022, por questões estruturais, ficamos sem local pra treinos. A gente voltou em 2023 e fomos vice, campeão e vice de novo, tivemos alguns percalços. Foi em 2025 que recebi a convocação para a Seleção de paracurling. Este ano ainda vou competir com eles por equipes, por conta da formação. Eles me fizeram esse convite para continuar.
SO: E em boa parte desse período, você treinou no Morumbi, correto?
Brenda: A única pista de curling que a gente tem no Brasil é no Morumbi. Se não me engano, é a segunda pista de paracurling na América Latina, mas por muito tempo foi a única.
SO: Conte um pouco dessa transição de um esporte para o outro e para além disso, a adaptação.


