Nutrição, saúde mental e ciclo para LA28: uma entrevista com a halterofilista Brenda Pepe

Entrevistada nesta semana pelo Surto Olímpico, Brenda falou de saúde mental, relação nutrição-esporte, além de avaliar o cenário atual do halterofilismo brasileiro

Foto: CPB
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Esta semana, o Surto Olímpico entrevistou com exclusividade a halterofilista Brenda Pepe, que irá fazer parte da delegação brasileira no Parasul de Valledupar. Brenda também falou das passagens pelo curling em cadeira de rodas e pela natação.

Confira abaixo a entrevista na íntegra com Brenda Pepe:

SO: Brenda, gostaria de começar essa entrevista perguntando sobre a relação nutrição-esporte: para um esporte que demanda bastante fisica e psicologicamente falando como o halterofilismo, o quão estar inserida no mundo da nutrição pode intensificar ainda mais essa relação?

Brenda: A nutrição tem uma ligação bem grande com a atividade física. Brincamos no mundo esportivo que o atleta é composto de três pilares: treino, descanso e boa alimentação. E ainda há o quarto, que é a saúde mental. A nutrição está muito ligada a performance, geração de energia e recuperação muscular. E muito mais ligada a esportes de força, porque ela entra na saúde mental. Eu sou da 45 – categoria baseada no peso -, mas o meu perfil físico é de uma pessoa com 47 ou 48kg, então eu sofro com restrições alimentares para caber na categoria que é boa pra mim. Então eu hoje sei na prática o que é a nutrição comportamental para um atleta, pois tenho que lidar com questões emocionais para evitar compulsões.

SO: E o halterofilismo tem disso, de você talhar a saúde mental. Nesse começo de carreira, como você conseguiu lidar com o emocional?

Brenda: Eu tive uma carreira grande na natação, foram mais de dez anos nadando, e quando eu dei a pausa na natação por problemas pessoais eu descobri que o psicológico era um fator que eu não tinha e precisava ter. A partir do momento que entrei no halterofilismo, comecei terapia com psicólogo, acompanhamento com médico do esporte que pensa na saúde mental. Sempre que necessário, ele entra com medicação voltada pro psicossomático. E aí eu percebi que talvez o psicológico tenha me faltado muito no começo da carreira. Eu trouxe a maturidade de uma época que não tinha e desenvolvi, e passei a trabalhar de forma adequada, tanto na nutrição comportamental, no que e como vou comer, qual gatilho tenho para evitar excesso, entrando com medicação sempre que necessário.

SO: Como o esporte surgiu na sua vida?

Brenda: Eu tenho uma deficiência congênita, nasci com uma má formação na coluna e nos membros inferiores, fiz dez anos de fisioterapia numa instituição pública de São Paulo, e eles perceberam que eu estava bem adaptada, não tinha limitações, e eles sugeriram que eu entrasse na natação. Era um esporte mais completo e que manteria os resultados que eu tinha. Fiquei mais de dez anos nadando e competindo em alto rendimento, ganhei uma bolsa de estudos por ser atleta e virei nutricionista por isso. Meados de 2020, dei uma pausa de vez por motivos pessoais. Só que esses motivos pessoais estavam mais ligados ao fundo emocional, e aí eu percebi que precisava voltar a treinar. Minha avó me incentivou a voltar pro esporte e aí voltei ao crossfit, que já fazia por fortalecimento. Já estava com algumas problemas por ter que levantar, deitá-la e virá-la. No crossfit, tive um ganho de força no Supino muito rápido. E em menos de três meses, um coach que é muito amigo meu me sugeriu: entre no halterofilismo. “Cê” foi boa muito tempo na natação, mas seu talento é no halterofilismo. Entrei em contato com alguns conhecidos, me indicaram para o Centro de Treinamento Paralímpico. Fiz testes, e lá perceberam que eu seria a segunda melhor na categoria 45kg, e que talvez eu entrasse pra Seleção muito rápido, com a evolução que eu poderia ter.

Foto: Divulgação/CPB

SO: Você passou também pelo curling em cadeira de rodas, não é? Conte pra gente um pouco sobre.

Brenda: O curling em cadeira de rodas surgiu por um convite de um técnico do triatlo e de natação, o Tiago Borgate, em 2021, durante a pandemia. Ele sabia do meu quesito com a minha avó. “Acho que você vai curtir, ter um tempo pra você.” Entrou mais como um hobby na minha vida, eu treinava de sábado no Morumbi e logo a gente formou um time de paracurling, disputamos campeonatos nacionais e tivemos uma ascensão muito grande. E aí em 2024, eu tive o convite para a seleção, mas renunciei porque calhou com o halterofilismo e aí como o paracurling tem temporadas, optei por continuar no halterofilismo.

SO: Quanto tempo você passou no paracurling?

Brenda: Eu ainda faço parte, estou desde 2021, paramos em 2022, por questões estruturais, ficamos sem local pra treinos. A gente voltou em 2023 e fomos vice, campeão e vice de novo, tivemos alguns percalços. Foi em 2025 que recebi a convocação para a Seleção de paracurling. Este ano ainda vou competir com eles por equipes, por conta da formação. Eles me fizeram esse convite para continuar.

SO: E em boa parte desse período, você treinou no Morumbi, correto?

Brenda: A única pista de curling que a gente tem no Brasil é no Morumbi. Se não me engano, é a segunda pista de paracurling na América Latina, mas por muito tempo foi a única.

SO: Conte um pouco dessa transição de um esporte para o outro e para além disso, a adaptação.

Brenda: A natação era a única modalidade muito diferente das outras, é completa e muito complexa. Eu brinco com meu treinador, que hoje tenho uma rotina maior, me dedico mais, mas me canso menos, para a questão de treinos, de recuperação. Um esporte complementou o outro. Vim de um esporte de ultracondicionamento respiratório e físico para uma modalidade muito mais estratégica e daí os dois casaram muito bem. O halterofilismo exige condicionamento físico e força, que o curling talvez me trouxe, pois é uma pedra de 22kg que temos que jogar por uma pista de 45 metros. E eu trouxe a estratégia do curling para o halter. A gente tem que ter muita estratégia para competir no halter, de pedida, de técnica, ter coisas que o curling trouxe. A parte da natação eu tenho mais condicionamento, mais mobilidade, ter uma pegada mais aberta e ter um favorecimento. Eu tenho uma questão respiratória, uma capacidade boa. Essa transição foi importante para estar na modalidade que estou hoje. Consigo migrar pela questão estratégica ser parecida.

SO: Que lições você leva dos esportes que disputou na carreira e aplica nos dias de hoje, não só para o esporte que você disputa atualmente, como para a vida?

Brenda: As lições refletiram na minha autoestima, conhecendo pessoas diferentes que lidavam com suas deficiências de formas diferentes. Isso me ensinou a lidar com minha deficiência e ter autoestima boa, todos os esportes me trouxeram isso. Também a questão da disciplina, de pensamento lógico.

SO: O que falar dessa sua ascensão em tão pouco tempo de carreira, com recordes quebrados e bom desempenho em campeonatos?

Brenda: Foi uma questão muito bem planejada, eu brinco com meu técnico que “tivemos o timing certo”, entrei no fim de um ciclo paralímpico, comecei a treinar e equilibrar bem. Já cheguei com bom condicionamento e boa mentalidade. A gente trabalha o ano inteiro durante um ciclo e eu consegui entrar em 2025 bem, usamos todas as estratégias que tínhamos e podíamos usar, para que essa ascensão me leve a Los Angeles.

Foto: Divulgação/CPB

SO: E como você enxerga a boa safra de halterofilistas para LA28?

Brenda: A maior delegação brasileira que a gente já teve na modalidade. A modalidade tem ganhado uma visibilidade enorme, e principalmente de mulheres. Na seleção, somos dezessete, contra 9 homens em um esporte ligado ao lado masculino. E hoje as mulheres se destacam no quesito de força.

SO: Puxando esse gancho, como anda a expectativa pro fim do ciclo olímpico?

Brenda: Temos algumas competições obrigatórias, o Ranking Los Angeles foi criado este ano. Começamos a entrar agora no ciclo, teremos algumas classificatórias que vão ditar o ranking, que daí os comitês vão decidir quem vão levar. Estudando o ranking, temos bons atletas. Tem briga por essas vagas, tem atletas tão bons e vagas reduzidas, ninguém de vaga garantida, tá todo mundo no jogo.

SO: Como anda a preparação pro Parasul de Valledupar e quais as expectativas?

Brenda: A gente já se apresenta essa semana pra Seleção, na quinta-feira. Estamos no finzinho, não é uma preparação tão volumosa. A gente entra num período específico, de técnica e refinamento de carga. Tem mais uma semana e meia até a minha prova. Estamos planejando alguns quilos a mais do que a última pedida.

SO: Quais as lições que ficam desse começo de carreira no halterofilismo?

Brenda: Aprendi a ter mais gratidão por algumas coisas. Fui muito insistente, demorei muito para conseguir resultados e não mantinha por muito tempo. O halter foi um presente que ganhei da vida. Perdi algumas coisas pessoais, mas ganhei na modalidade, na profissão, na autoestima. De me sentir forte, me sentir capaz. E essa ascensão rápida me mostra que foi um presente, aprendi a ter gratidão.

SO: Como você enxerga o cenário do halterofilismo nacional?

Brenda: A visibilidade que a gente ganhou nos últimos dois anos após Paris, com a medalha da Tayana, da Maria, da Lara, da Andreia, fez com que a modalidade crescesse muito no padrão nacional. Hoje vemos meninas de menos de 25 anos com cargas desafiadoras. A gente vê que pro próximo ciclo, pra quem já está na Seleção, a vaga não está tão fácil.

SO: Qual a emoção de estar representando seu país em campeonatos como o Parasul de Valledupar?

Brenda: É um orgulho grande, uma satisfação gigantesca. Eu trabalho como CLT e meus pacientes entendem, não ficam chateados. Quando um paciente diz: “vai lá, você vai representar seu país”, dá um aconchego, uma sensação de dever cumprido. Vou falar pelo Mundial, e é uma sensação de antes de competir, uma adrenalina grande, mas quando passa, é uma sensação inexplicável de você estar ali. A vida inteira na natação escutava meus colegas: “não, eu fui pros Jogos, pro Parasul, pro Parapan”, arrepia. Você sentir essa sensação, é inexplicável, é um arrepio. “Era disso que tavam me falando.”

SO: E como foi o começo da carreira no halterofilismo?

Brenda: Uma das coisas que sempre foi no começo: me propor a fazer algo que eu esteja me divertindo, curtir o momento, curtir a carga, as competições. Evitar ficar frustrada, muito pelo contrário, lidar com esse começo me trouxe leveza. Eu me cobrava muito. Viver aquilo, e viver de forma leve. Vou fazer pra me desafiar, dar risada, fazer novas amizades. A Seleção me permite conhecer pessoas e estados que eu não conheceria se eu não fosse. Eu abri o leque porque tá mais leve, não tem rivalidade.

SO: Para quais estados você viajou com o halterofilismo?

Brenda: Com o halter, eu fui a três.

SO: Quais:

Brenda: Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Brasília.

SO: Você já viajou com a natação e pro curling em cadeira de rodas?

Brenda: Com a natação sim, pra Fortaleza e pra Porto Alegre.

SO: O curling em cadeira de rodas precisaria desenvolver mais, né?

Brenda: É difícil para um país tropical como o nosso, manter uma pista de gelo e mantê-la resfriada, por conta das oscilações climáticas ao longo do dia. É uma logística muito cara.

Brenda Pepe estará com a delegação brasileira convocada para os Jogos Parasul-Americanos de Valledupar 2026, que serão realizados de 5 a 15 de julho na Colômbia.

João Hudson

João Hudson

Cearense com muito orgulho. 20 anos de idade, passei por Esporte News Mundo, VAVEL Brasil e FutCearense.
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