Esta semana, o paraciclista Lucas Prado concedeu entrevista ao Surto Olímpico para falar da carreira, passagens pelo goalball e futebol de 5, além do seu longo período no atletismo, que lhe rendeu participações em Paralimpíadas e Parapans.
Abaixo você pode conferir a entrevista na íntegra:
SO: Desde já, Lucas, obrigado por aceitar o convite. E a minha primeira pergunta era sobre esse começo no esporte, que foi em 2004, com o Futebol de 5. Lá se vão quase 22 anos. Como foi esse começo?
Lucas: Prazer, meu nome é Lucas Prado. Cara, minha história se resume em pequenos comecinhos, né? Em 2000, entrei no Banco do Brasil. Em 2002, acabei tendo um acidente de trabalho. Foi um descolamento de retina. Acabei ficando cego. E passei por um ano de cirurgia, e onde que acabou não podendo ter mais salvação, de voltar a enxergar. E daí pra cá, entrei num estado de depressão muito grande. E aí eu tinha um amigo meu cego, que era do futebol de cegos, da seleção brasileira. E onde ele falou que tinha esporte pra cego. Eu já conhecia ele antes de ficar cego. E onde ele fez o convite. E eu falei: cara, como que cego pode jogar bola sem ver? Ele falou, não, você vai ver, você vai gostar. E fui com ele pra Cuiabá. E onde que eu fiquei, no Instituto de Cegos, lá no CTA. Aprendi a me locomover, comecei a jogar no esporte. E daí foi a trajetória que começou tudo. Que foi onde houve a minha reabilitação, minha salvação. De voltar a ser alguém de novo, ser vivo de novo. Porque foi um estado depressivo muito grande, com a perca da visão. E comecei a gostar. Eu sempre gostei do esporte. Comecei a treinar, comecei a jogar futebol. E aí como eu sou um cara muito individualista. Gosto de me dedicar muito. E aí acabei indo pro goalball junto também. E daí, cara, eu brigava muito com meus parceiros dentro de quadra. Brigava muito pra se dedicarem mais. Aí acabei recebendo um convite. Finalzinho de 2005, pelos amigos meus que eu tinha. Falavam: cara, você é um cara que corre bem. Por que você não faz um teste no atletismo? E acabei fazendo esse teste de atletismo. E daí pra cá, estou até hoje no esporte. No atletismo. E aí, depois de 20 anos no atletismo, eu comecei a pedalar, eu sempre gostei de pedalar. Na época da pandemia, eu tive uma trajetória pra ficar em casa. Pra treinar, pra manter o nível, acabei comprando uma bicicleta. E eu e meu piloto começamos… o meu guia. Começamos a pedalar em Joinville. E aí, meu treinador, que é do atletismo, viu. Nossa, você pedala bem.Você tem que fazer um teste no ciclismo. E aí, eu vinha de cirurgia de quadril, de lesões. Aí, cara, acabei aceitando esse teste aí. E estou aí agora no ciclismo.
SO: É, você transitou por vários esportes, né? Passou pelo goalball também?
Lucas: Passei. No goalball, nós fomos campeões brasileiros.Pelo futebol também. Fomos cinco vezes campeão brasileiro pela EMC. Mas, assim, o esporte que eu me destaquei realmente foi o atletismo. E agora, tenho um novo sonho aí de me destacar no ciclismo. Estou no começo agora, né? Fazendo a transição em atletismo e ciclismo ainda. Acabei acabando aqui agora a Taça Maringá e a Taça Brasil.Eu estou indo pra São Paulo pra disputar o Open Internacional de Atletismo, né? Que é uma competição importante durante o ano no atletismo. Que é uma prova que eu ainda gosto muito.
SO: O Open Internacional é nesse fim de semana, né?
Lucas: É, no próximo fim de semana agora lá. Que vai ser no meio de semana, na verdade. Vai ser dia 12, 13 e 14. E vai ser no Ibirapuera. No estádio novo reformado agora, né, cara? Que é uma maravilha. Depois de tantos anos, eu voltar lá de novo pra competir. Minha primeira competição no Ibirapuera foi em 2007 no Mundial de Cegos. Onde eu fiz as minhas melhores marcas do mundo. E logo depois eu fui pro Pan-Americano no Rio de Janeiro. Onde que eu me destaquei bastante também.
SO: Exato. E a reforma do Ibirapuera ficou ótima. Bom, Lucas, você foi amplamente vitorioso no atletismo.Você já disputou duas Olimpíadas, quatro Parapans ao longo da história: Rio, Guadalajara, Toronto e Lima.No caso das Olimpíadas, você disputou Pequim e Londres
Lucas: E Rio de Janeiro.
SO: Rio de Janeiro também?
Lucas: Rio de Janeiro e Tóquio.
Lucas: Então, mas assim, é porque eu machuquei. Eu tive uma lesão séria no Rio de Janeiro. É devido a 2015 que eu vim do Mundial de Doha, que eu tinha rompido o tendão do joelho. Aí faltando um mês pros Jogos do Rio. Eu tive uma lesão que ela tava quase cicatrizada e eu entrei na prova.Eu passei pra final e aí os médicos me vetaram porque era o risco de eu romper o músculo total. E em Tóquio foi a mesma coisa. Em Tóquio eu tive uma lesão no abdômen.E onde que eu tive quase a romptura total de todos os músculos do abdômen, do lado direito da barriga. E aí não deixaram eu competir a final porque era um risco muito grande à saúde. E aí foi duas competições que eu me frustrei muito, né, cara? Eu fiquei muito triste com isso.Bom, o quão as disputas e os resultados, as disputas tanto dos Parapans quanto das Olimpíadas podem agregar de lições, tanto na vida quanto na carreira? Cara, a do Rio de Janeiro foi um gosto amargo que eu tive, né? Por o jogo ser em casa. Eu estava numa expectativa muito grande, eu estava muito bem treinado pra isso. É o aprendizado que o corpo da gente chega no limite extremo e nem sempre é o que você quer, né? O mundo dá muita volta. Eu tive, em 2017, abri mão do Mundial de Londres que eu tinha lesionado no Rio. E aí logo em seguida depois era o Mundial em Londres e eu não quis ir pro Mundial porque eu falei que eu vou tratar, vou sarar essas lesões. Aí em 2019 eu vim como campeão do mundo, batendo o recorde mundial da prova, fazendo a melhor marca da minha vida, correndo 10,95. E o aprendizado é sempre, cara, que é… O esporte, ele te molda, né, cara? Ele te molda quando você tá no seu melhor… Eu falo pra todo mundo: quando você tá no melhor nível da sua performance, você tá no melhor nível pra se machucar. Então o esporte tem hora que ele é muito ingrato.Você treina um ano todinho pra correr 10, 11 segundos ali que passa muito rápido. E quando você para, você consegue alcançar o nível ou quando você não consegue, você para, reflete e você fala: cara, o que que deu errado? O que que não deu? O que que posso melhorar? O que que eu não posso? É muita coisa acontecendo na cabeça e isso tem muitos atletas, se não tiver a capacidade pra administrar isso, isso surta, fica depressivo. É um impacto muito forte, cara. Então o atleta, ele tem que estar muito bem preparado, porque se ele não estiver muito preparado, ele entra em depressão. É os dois lados. Eu falo que o esporte hoje é os dois lados da moeda. O mesmo tanto que ele te dá, ele te toma. Então se você não estiver preparado, é muito difícil, cara. É complicado. Já vi amigos do esporte cair em drogas, sair do esporte, entrar em depressão, entrar em drogas, entrar em bebidas. E já vi pessoas saírem da bebida, saírem da droga, entrar no esporte e ser um atleta excepcional. Então nós temos esses dois lados da moeda do esporte.

