Yane Marques passou boa parte da vida aprendendo a competir. Aprendeu a lidar com pressão, a conviver com derrotas, a reconhecer quando uma adversária foi melhor. E, principalmente, aprendeu que ninguém chega sozinho a uma medalha. Agora, começa a aplicar tudo isso em outra coisa.
“Eu trago muito a minha história de atleta. Estou até preocupada, parece que estou querendo treinar para a hora dessa competição, para dar tudo certo. Então, busquei, na medida do possível, me inteirar de tudo, participar de todas as discussões e decisões”, conta Yane.
Medalhista de bronze no pentatlo moderno nos Jogos Olímpicos Londres 2012 e primeira mulher eleita vice-presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Yane começa nos Jogos Sul-americanos Santa Fé 2026 uma nova etapa de sua trajetória no Movimento Olímpico: a de Chefe de Missão do Time Brasil. Será ela também quem estará à frente das delegações brasileiras nos Jogos Pan-americanos Lima 2027 e nos Jogos Olímpicos Los Angeles 2028.
É a primeira vez que ocupa a função. E a mudança de perspectiva é grande. Se antes precisava entrar na arena preparada para competir, agora sua missão começa muito antes. É fazer com que os atletas encontrem as melhores condições possíveis para chegar à arena e pensar apenas naquilo que foram preparados para fazer.
Em Santa Fé (e em missões de eventos multiesportivos por natureza), esse trabalho aparece pouco para quem está de fora. Está no transporte que precisa funcionar saindo da Vila até a arena de competição, no quarto que precisa ter uma cama confortável para o repouso, na alimentação que deve considerar as necessidades nutricionais de diferentes atletas de alto rendimento, nos deslocamentos, no credenciamento. Está em uma lista gigantesca de detalhes muito pequenos. E para o atleta, o ideal é que tudo isso simplesmente aconteça.
"É lógico que ter vivido isso como atleta me ajuda muito, ter sentido na pele. Sei o que os atletas precisam e isso encurta alguns caminhos, ajuda nas tratativas. Mas isso é realmente novo para mim. Por isso estou sempre perguntando - espero que tenham paciência comigo", brinca.
Mas em alguns momentos Yane ainda se pega olhando tudo com os olhos de quem já esteve do outro lado. “Eu volto de vez em quando para a minha condição de atleta e penso: ‘Meu Deus do céu, realmente alguém fazia isso por mim’. Agora estou tendo a oportunidade de devolver e fazer isso com todo o carinho do mundo por eles”, garante.
A experiência ajuda bastante. Mas não ensina tudo. Yane assumiu a vice-presidência do COB em 2025, na gestão do presidente Marco La Porta, depois de uma trajetória que já vinha levando a atleta para outros espaços do esporte. Foi presidente da Comissão de Atletas do COB, buscou formação em gestão esportiva e pública e passou oito anos na gestão pública como secretária executiva de Esportes do Recife.
A chegada à vice-presidência foi mais um passo dessa transformação. Em 2024, Yane tornou-se a primeira mulher a disputar a eleição do COB. A chapa venceu, ela assumiu a vice-presidência e passou a participar das decisões estratégicas do esporte olímpico brasileiro. Agora, há um lado novo para aprender.
A curiosidade, aliás, parece ser uma das características que Yane mais leva para essa nova fase. Ela busca entender tudo. Vai ao transporte. Acompanha a alimentação. Participa das reuniões. Pergunta. Volta ao assunto. Tenta enxergar como cada decisão tomada nos bastidores chega ao atleta. E não é difícil entender o motivo.
Yane sabe o que acontece quando um atleta chega a uma competição depois de horas de viagem. Sabe que ele quer treinar, competir e, principalmente, descansar. Também sabe que, naquele momento, informação demais pode atrapalhar mais do que ajudar. “Como é a cabeça do atleta que chega aqui agora, cansado da viagem? Quer treinar, quer competir, mas também quer descansar", garante. Por isso a cerimônia de boas-vindas que o COB desenhou para Santa Fé é sucinta. "Muito objetiva, muito rápida.”
Esse olhar talvez seja uma das principais ferramentas que ela leva para a nova função. Yane não precisa imaginar como o atleta se sente. Ela já esteve ali. Ao mesmo tempo, Santa Fé pode mostrar a ela que ser Chefe de Missão é diferente de competir. A logística dos Jogos tem colocado Yane diante de situações que precisam ser resolvidas na hora, de pedidos que mudam, de decisões que precisam ser ajustadas e de negociações que não estavam necessariamente no roteiro. Um tipo de treinamento. Só que, desta vez, sem cronômetro.
“A logística aqui em Santa Fé não está sendo muito fácil. Está sendo uma grande escola para mim, de mediação, de situações que a gente previa de um jeito e acontecem de outro. Como a gente resolve? Como ajusta essas discussões, esses debates, esses pedidos? Mas está sendo uma grande escola para eu ir melhorando, porque ano que vem tem o Pan e depois tem Jogos Olímpicos”, enumera.

