Surto Opina: A lição da final olímpica do futebol em Tóquio que só veio agora

A Espanha, que foi prata em Tóquio perdendo para o Brasil, teve oito jogadores daquela final que se tornaram campeões do mundo em 2026. Coincidência ou trabalho planejado?

Foto: Gaspar Nóbrega/COB
Foto: Gaspar Nóbrega/COB

O que Unai Simon, Cucurella, Zubimendi, Oyarzabal, Eric Garcia, Pedri, Dani Olmo e Mikel Merino tem em comum além de serem campeões do mundo recém coroados? Eles estavam na decisão da medalha de ouro do futebol masculino em Tóquio, onde ficaram com a prata após perderam para o…Brasil. E o técnico da Espanha na partida? Luis de La Fuente. O recado aqui é claro: os espanhóis seguiram um projeto e colheram frutos – não só o mundial, mas a Euro de 2024. Enquanto o Brasil continua ao Deus dará no futebol e fica cada vez mais para trás.

Escalação de Brasil e Espanha na final olímpica de Tóquio 2020 (foto: Reprodução)

Se colocarmos ainda a final de Paris 2024, onde a Espanha esteve novamente, desta ficando com o ouro em cima da França – e o Brasil nem se classificou – temos mais quatro jogadores que foram campeões mundiais: Pubill, Cubarsi, Baena e Joan Garcia – Eric Garcia também esteve nesta final. Ou seja, 11 dos 26 convocados jogaram as últimas olimpíadas.

Pra comparar: Brasil só teve três jogadores que disputaram as últimas olimpíadas em seu elenco de Copa do mundo: Bruno Guimarães, Matheus Cunha e Martinelli. Weverton, Neymar, Marquinhos, Danilo e Alexandro, disputaram os Jogos do Rio e de Londres, mas já passaram da faixa dos 30 anos estão no passado da seleção do que o futuro próximo, ao contrário dos jogadores da seleção espanhola.

Mas o que importa ter um jogador campeão do mundo que jogou nas últimas olimpíadas? Em 2002, na última vez que fomos campeões mundiais, tivemos oito nomes que estiveram para Atlanta 96 e Sydney 2000: Dida, Lúcio, Roberto Carlos, Rivaldo, Juninho Paulista, Ronaldinho, Luizão e Ronaldo. Muitos deles se testaram nas Olimpíadas e conseguiram seu lugar na seleção principal logo depois – Ronaldo fenômeno em Atlanta, é o principal exemplo. Assumiu a titularidade durante os Jogos tomando o lugar de Sávio para nunca mais perder essa titularidade até na seleção principal.

Ronaldo, na época chamado de Ronaldinho, começou a virar titular da seleção principal durante as olimpíadas de Atlanta (foto: Reprodução)

Quando a Federação Espanhola efetivou de La Fuente ao cargo de treinador principal, após anos de trabalho na base, tinha em mente que a partir daquele momento ele desenvolveria a geração que ele trabalhou no mais alto estágio. Algo que no Brasil raramente aconteceu. Desde que Mano Menezes, treinador da principal na época, foi demitido após a prata em Londres, Tite, não se arriscou a assumir a seleção olímpica, delegando para Rogério Micale em 2016 e André Jardine em 2021, que apesar do ouro conquistado, fizeram trabalhos pontuais. Em 2024, Ramon Menezes, técnico da sub20, consegui a proeza da seleção olímpica não se classificar para Paris. Hoje Paulo Victor, técnico do sub20, será o treinador da seleção olímpica e espera-se uma mínima interação como Ancelotti, treinador da seleção principal.

A seleção sub23 é uma ótima janela para testar jogadores jovens que ainda podem ter seu brilho na seleção. Mas a escolha deve ser criteriosa. Nos últimos anos, o que se vê é que as seleções de base do Brasil têm mais os jogadores que ‘deu’ para convocar, do que o melhor que temos. Ora porque nossos jogadores estão sendo vendidos cada vez mais jovens, e o calendário das competições sul-americanas não ajudam, e os clubes não querem liberar seus jogadores. Claro que a os jogos sub23 não são considerados mais datas Fifa, mas uma confederação forte como a CBF deveria ter o poder de persuasão para que equipes cedam seus jogadoras, salvo raras execessões

Um trabalho integrado entre base e profissional na seleção se torna cada vez mais urgente. A Espanha mostrou que usar a olimpíada como trampolim é importante para o futuro e a gente espera que tanto ela, quanto as competições de base sejam tratadas com seriedade e planejamento pelo Brasil, para que a gente interrompa esse movimento de regressão e que a gente volte a ser um dia, o país do futebol.

Marcos Antonio

Marcos Antonio

Pai, Carioca, 40 anos, profissional de TI e cursando jornalismo. Um Fã de basquete e de todos os esportes olímpicos (e alguns não olímpicos também) que faz um trabalho de formiguinha para que todos eles tenham seu espaço. No Surto Olímpico desde 2012.
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