Pra muita gente, só ouro importa. Mas estas mesmas pessoas se esquecem (ou fingem esquecer) de como é difícil chegar ao topo e se manter nele
Caio Bonfim é um grande personagem do esporte olímpico brasileiro. E além de ser um grande atleta, o cara que botou o Brasil no mapa da marcha atlética mundial, ele tem o dom da oratória. Sempre paro para ouvir suas entrevistas e mesmo exausto após conquistar o bronze no Mundial de marcha atlética em Brasília (DF), parou para falar com a TV Globo e com toda sinceridade, falou do medo em não conseguir ir ao pódio e soltou a frase que me fez pensar: ‘Medalha não tem cor’ . Em uma sociedade tão desgastada com excesso de estímulos, será que o público ainda é capaz de enxergar o valor de uma medalha que não seja dourada?
Acredito que ele tenha falado isso porque as expectativas sobre ele eram altas. Afinal, medalhista olímpico e campeão mundial, Caio competia literalmente em casa, ele é natural de Brasília (DF). Mas muita gente se esquece que ele não compete sozinho e nem a vitória era garantida. Ele mesmo citou que na marcha atlética, um bolo de 20 atletas pode vencer a prova. E por mais que ficasse uma frustração – compreensível até – as críticas são injustas, porque ficou claro que ele deu tudo de si para chegar naquele pódio, cruzando a linha de chegada exausto. Mas pro torcedor médio – ou até o especialista- ele ‘amarelou’. Sendo que às vezes a diferença para a cor de uma medalha são poucos segundos, ou até milésimos, dependendo da prova
Lembro de quando os feitos olímpicos dos brasileiros eram incensados – com todo o mérito – na TV. Nunca esqueço da medalha do Gustavo Borges em Barcelona 92, eu com sete anos vendo o jornal nacional e tenso com toda aquela narrativa que a Fátima Bernardes fez do bizarro caso do nadador que não teve o tempo computado. Hoje em dia, é quase impossível marcar alguém dessa forma como fui marcado. Sim, os tempos são outros, mas vivemos um excesso de estímulos, nada emociona tanto, nada marca tanto, todo mundo está cansado, todo mundo quer mais, uma prata ou um bronze não são nada perto de um ouro.
Claro que, nosso volume de feitos históricos no esporte olímpico aumentou muito nos últimos 30 anos. Isso talvez diminua os feitos, afinal pode ter um grupo que ficou ‘mal-acostumado’. Rebeca Andrade, se tivesse conquistado seis medalhas nos anos 90 e 2000, talvez tivesse uma estátua em alguma praça de sua cidade natal. Nos anos 90, Caio Bonfim, com seu carisma, seria figurinha carimbada nos grandes programas de auditório, viraria ídolo como por exemplo o Oscar Schmidt é para muitas pessoas.
Mas como disse, na era da exaustão e do algoritmo que intensifica o ódio, nada é bom o suficiente. Para o esporte, só o ouro interessa, só título importa, só recorde é especial. Menos do que isso, é fracasso, decepção, frustração. Tudo é analisado de maneira rasa, devido a velocidade das redes sociais.
Inegavelmente a crítica deve existir se algum atleta ou equipe favorita for abaixo do esperado. Apoiar um atleta é diferente de ser condescendente. Mas todo caso é um caso, uma análise diferente pra cada evento, ninguém pode ser considerado gênio ou fracasso por um dia bom ou ruim.
Voltando ao Caio, ninguém pode ficar decepcionado com seu resultado no domingo, como já dito acima, ele deu tudo de si na prova na sua cidade natal, onde ele mesmo falou que saiu de xingado na rua pra aplaudido pelos seus conterrâneos, algo que traz mais significado ainda para sua prova. E subir ao pódio, tanto para ele quanto para qualquer atleta, é sinônimo de mais chances de viver do próprio esporte com patrocínios e bolsa atleta. Parafraseando o Caio, muitos falarão, mas para quem vive de esporte olímpico, qualquer medalha é ouro.









