Marcados por dívidas e atuações lendárias, os Jogos Olímpicos de verão em solo canadense completam 50 anos
Em 17 de julho de 1976, às 15 horas locais, mais de 73.000 pessoas reuniram-se no Estádio Olímpico para participar da Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Montreal. E os jogos que tinham tudo para ser um fiasco completo por conta de todos os seu problemas para as instalações ficarem prontas, o primeiro grande boicote da história olímpica – que talvez tenha inspirado o grande boicote seguinte em Moscou – e um inédito fraco desempenho de um dono da casa, a Olimpíada acabou sendo palco de grandes nomes atletas, e a atuação lendária que entrou para história do esporte
Listamos abaixo alguns destes eventos e de alguns personagens que colocaram seus nomes no esporte em Montreal:
Boicote Africano
O primeiro grande boicote aos Jogos Olímpicos veio dos países africanos, que protestaram contra a Nova Zelândia. A Seleção do país fez uma excursão na África do Sul, país banidos de competições por conta do regime racista do Apartheid. 22 países africanos pediram punição para a Nova Zelândia, mas o COI recusou fazer isso, pois o rugby não fazia parte dos esportes olímpicos. Sem aceitar a decisão, quase todos os países africanos com atletas classificados para os Jogos abandonaram a competição, além de Afeganistão, Albânia, Birmânia, Iraque, Guiana, Sri Lanka e Síria. Apenas Senegal e Costa do Marfim não aderiram ao boicote no continente.
Fiasco Canadense
Não se pode negar que esta olimpíada foi um tremendo fracasso para o Canadá. E não é só esportivo. Financeiramente, os Jogos Olímpicos de Montreal tiveram um estouro de 720% do orçamento- um total de 1,6 bilhão de dólares canadenses na época, o que levou a cidade canadense levar 30 anos para pagar suas dívidas. Em comparação, os Jogos do Rio de Janeiro estouraram o orçamento em 51% e em Londres, 76%. Tudo culpa da má organização, obras faraônicas – como o estádio olímpico era pra ser um marco futurista, com o apelido de ‘Big O’, custando 1 bilhão de dólares, virando um elefante branco e custando 1 bilhçao de dólares, problemas com sindicatos de trabalhadores pelo comitê organizador terem feito escalas de 24 horas para operários conseguirem concluir as obras a tempo, muito gasto com segurança após a tragédia em Munique 72 e claro, corrupção (Isso não é exclusividade do Brasil).

E durante os Jogos, mais problemas: Uma chuva apagou a chama olímpica e um funcionário, em pleno desespero, reacendeu a pira com um isqueiro. Rapidamente o estratagema foi descoberto e a chama olímpica reserva, vinda de Olímpia, reacendeu a pira. E para piorar, esportivamente, Canadá também foi abaixo do esperado, conseguindo cinco medalhas de prata e seis de bronze – Esta foi a primeira vez que o país anfitrião dos Jogos Olímpicos de Verão não ganhou nenhuma medalha de ouro. Moradores de Montreal da época brincavam que se essa olimpíada não destruiu Montreal, mas nada destruiria. .
Nádia Comaneci

Apesar de toda a desorganização, Montreal foi palco de uma das apresentações mais espetaculares da história das olimpíadas. Nádia Comaneci, de apenas 14 anos, foi a primeira ginasta na história a conseguir uma nota 10. E não foi só uma vez, ela registrou sete notas 10 – que o placar eletrônico mostrava 1.00 ao invés de dez por só ter três dígitos – e conquistando três medalhas de ouro, incluindo a do individual geral. Com sua atuação, Nádia encantou o mundo e mostrou que a perfeição era possível de ser atingida.
João do Pulo

Principal esperança de medalha do Brasil na olimpíada, João vinha credenciado pela assombrosa marca de 17,90m no salto triplo, recorde mundial que levou 10 anos para ser quebrado. Aos 22 anos, João foi escolhido o porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura em Montreal e teria seu grande desafio contra o soviético Viktor Saneyev. Mas dores na coluna limitaram um pouco os movimentos de João, que ainda assim, conquistou a medalha de bronze com 16,90m. Mas por ser jovem, a esperança do ouro ficaria para Moscou ou quem sabe até para Los Angeles. Pena que o destino permitiu que isso acontecesse.
Lasse Viren
O nome que retomou a tradição dos finlandeses voadores, Viren buscou em Montreal igualar o feito de Emil Zatopek e vencer, os 5 mil, 10 mil e a maratona. Nos dois primeiros, conseguiu a dobradinha, repetindo o feito de Munique 72. Poucos dias depois, encarou a maratona, mas não foi possível vencer. Ele terminou em quinto lugar. Mas seu bicampeonato olímpico entrou pra história, sendo igualado por Mo Farah 40 anos depois no Rio de Janeiro. Apesar do sucesso, Viren ficou envolvido em uma polêmica por ter sido acusado de ter feito doping sanguíneo, fazendo transfusão do próprio sangue com mais oxigênio para ganhar mais força física, algo que ele sempre alegou nunca ter feito.
Sugar Ray Leonard
Na considerada uma das equipes de boxe mais fortes que os Estados Unidos enviou para os Jogos Olímpicos, Sugar Ray, então somente Ray Leonard, venceu todas as lutas por decisão unânime dos juízes. Após as olimpíadas, ele virou boxeador profissional e se tornou um dos maiores da história, com seis títulos mundiais em cinco categorias diferentes.
Shun Fujimoto
O ginasta japonês fez um sacrifício e tanto para que sua equipe ficasse com o ouro. ele lesionou o joelho quando fazia sua apresentação no solo. ele escondeu a lesão e aguentou a dor para competir nos aparelhos restantes e não deixar que a equipe da União Soviética. ele conseguiu 9,5 no cavalo com alças e 9,7 nas argolas, onde no pouso a lesão no joelho se agravou, com ele fraturando a patela e rompendo todos os ligamentos do joelho já lesionado. O seu sacrifício valeu o ouro para o Japão e um dos médicos que o atendeu, depois comentou: “Como ele conseguiu dar cambalhotas, piruetas e aterrissar sem cair gritando está além da minha compreensão.”
Caitlyn Jenner
39 anos antes de sua transição de gênero, Caitlyn Jenner fez um grande feito nas olimpíadas de Montreal, quando se chamava Bruce. Conseguiu se tornar uma das grandes estrelas do esporte dos Estados Unidos competindo no decatlo. No Canadá, ela teve as melhores atuações de sua vida, com oito melhores marcas da vida dentre as dez provas da modalidade, se tornando uma celebridade instantânea nos anos seguintes
Boris Onishchenko

Tricampeão mundial de pentatlo, o soviético Boris Onischenko (acima) competia por equipes quando foi descoberto durante a prova de esgrima que sua espada tinha um engenhoso esquema que acusava o toque sem encostar no adversário. Onischenko foi expulso da competição, o que forçou a União Soviética a desistir da competição por equipes. Segundo a imprensa soviética da época, ele foi chamado perante o líder soviético Leonid Brezhnev para uma reprimenda pessoal. Após o fatídico momento, Onishenko largou a carreira de atleta e passou a ser taxista em Kiev, hoje território ucraniano.
Final do vôlei masculino
Uma das finais mais longas da história do vôlei olímpico, o jogo entre Polônia e União Soviética durou quatro horas e 36 minutos. A TV Globo, que transmitia a partida ao vivo, não pôde passar o final do jogo por conta das restrições de satélite que tinha na época – o Brasil só tinha dois canais, que eram alugados por tempo e o horário estava reservado por outra emissora. O jeito foi gravar o tie-break e passar no dia seguinte a vitória polonesa
Kornelia Ender
A jovem alemã oriental foi o grande nome da natação em Montreal. Com 17 anos, ela conquistou quatro medalhas de ouro e uma de prata, sendo uma das líderes da grande atuação da Alemanha Oriental na modalidade. Nos anos 90, Kornelia admitiu que fez parte do doping sistemático organizado pelo país e nunca soube que tipo de drogas foram injetadas em seu corpo durante esse período. Após questionar os tais ‘medicamentos’, ela foi banida do esporte em 1977.









