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Do “concretão” de Mogi das Cruzes ao Parque Olímpico: minha saga para viver um dia nos Jogos Rio 2016

Viver, ainda que por um único dia, a atmosfera olímpica, a diversidade cultural, a celebração entre os povos e os jogos de basquete feminino é uma lembrança que carregarei até ir para o beleléu

Thiago Chaguri 8 min
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Do “concretão” de Mogi das Cruzes ao Parque Olímpico: minha saga para viver um dia nos Jogos Rio 2016
Foto: Arquivo pessoal

Para mim, os Jogos Olímpicos do Rio 2016 começaram em Mogi das Cruzes – SP, minha cidade natal, uma semana antes da cerimônia oficial de abertura. Entre os dias 30 e 31 de julho rolou um torneio amistoso de basquete masculino envolvendo a Seleção Brasileira, Lituânia, Austrália e China.

Ali, no conforto da minha “segunda casa” na época, o ginásio Professor Hugo Ramos, me acomodei em uma das curvas das arquibancadas que eu e meus amigos frequentávamos e batizamos carinhosamente de "concretão", pois era um dos únicos pontos em que não havia cadeiras.

Pude ver de perto Patty Mills e Matthew Dellavedova, campeões da NBA, Jonas Valančiūnas e Domantas Sabonis, ambos também da liga norte-americana, além de Jonas Mačiulis, bicampeão da EuroLiga com o Real Madrid. Domantas, inclusive, é filho do lendário Arvydas Sabonis, um dos grandes pivôs da história, campeão olímpico e mundial pela União Soviética e duas vezes medalhista de bronze olímpico pela Lituânia.

Arvydas estava presente no ginásio como integrante da comissão técnica lituana, mas não me arrisquei a pedir uma foto, com receio de ser ignorado. Pois bem, me arrependi depois, quando soube que ele havia sido bastante atencioso com os fãs.

O Brasil também tinha bons valores no elenco, como Leandrinho e Nenê, que atuavam com destaque na NBA, além de Marcelinho Huertas, Giovannoni, Marquinhos, Alex e companhia. Tiago Splitter e Anderson Varejão, infelizmente, ficaram fora dos Jogos Olímpicos por lesão.

A equipe comandada por Rubén Magnano foi a campeã simbólica do torneio preparatório. Primeiro, atropelou a China por 91 a 52. Na decisão, bateu a Lituânia por 64 a 62, em uma partida emocionante e decidida nos segundos finais.

(Foto: arquivo pessoal)

Aquela costumeira atmosfera efervescente no Hugão aumentou ainda mais a minha vontade de estar presente nos Jogos. Mas havia um problema — coisa pouca, um “mero” detalhe: eu não tinha conseguido comprar ingresso para nenhuma modalidade!

No dia 1º de agosto comecei minha busca em grupos de Facebook. Infelizmente, muitas pessoas agiam de má fé, elevando os preços de forma grotesca, fora a insegurança de não saber se o ticket era verdadeiro. Passei duas semanas entrando, atualizando e mandando mensagens nos grupos várias vezes ao dia. Enquanto o tempo passava, a expectativa diminuía e a frustração aumentava. 

Cheguei a pensar em colocar o plano B em prática: viajar ao Rio e tentar comprar ingresso na porta de algum evento. Até que, no fim da tarde de uma sexta-feira, 12 de agosto, encontrei o anúncio de um par de ingressos para dois jogos do basquete feminino, marcados para o domingo, 14, pelo valor original. Entrei em contato, reservei e rezei para que desse certo.

Como a venda era apenas do par, pensei imediatamente em Nadia, uma amiga que havia conhecido alguns meses antes nas arquibancadas do Hugão. Então, mandei uma mensagem:

— Tá livre no domingo? Bora pra Olimpíada do Rio???
— Como assim??? Faz isso comigo não, Chaguri! — Como bem a conheço, imagino que estivesse tendo um mini-infarto naquela hora.

Expliquei a situação e o risco de golpe, mas, mesmo assim ela topou na hora, ainda num misto de incredulidade e êxtase.

Nadia era atleta de futebol americano do Corinthians Steamrollers — hoje é uma baita árbitra da modalidade e também do Flag Football. Como treinava no Parque São Jorge, combinamos de nos encontrar no sábado em São Paulo, no Terminal Tietê, após sua atividade, para embarcarmos de busão rumo ao Rio.

Tudo estava alinhado e a empolgação era enorme. Contudo, na tarde daquele sábado, aconteceu um dos jogos que mais me marcaram negativamente como torcedor.

Depois de vencer a poderosa Espanha, então campeã europeia e medalhista de prata nos últimos dois Jogos Olímpicos (2008 e 2012), a Seleção Brasileira masculina voltou à quadra para enfrentar a Argentina. Tudo caminhava para uma vitória para lavar a alma contra nossos carrascos... Mas, por um daqueles acontecimentos que nem Freud explica — e com atuações monumentais de Facundo Campazzo e Andrés Nocioni, autor de 37 pontos —, o Brasil deixou escapar a vantagem de oito pontos, a pouco mais de dois minutos para o fim, e perdeu para a arquirrival após duas prorrogações.

Cheguei à rodoviária completamente “pistola” por ver aquela derrota em um jogo que estava praticamente ganho! E mal sabia que, três dias depois, também ficaria bastante revoltado com a eliminação precoce da seleção feminina de vôlei nas quartas de final.

Enfim, deixemos os infortúnios de lado e vamos à parte boa da história. Durante a viagem, eu e Nadia fomos conversando, e a animação pelos Jogos voltou a tomar conta. Chegamos ao Rio por volta das 5h da manhã, tomamos um café e enrolamos um pouco na rodoviária antes de passarmos na casa de uma amiga dela, em Del Castilho, para deixar alguns pertences.

Depois seguimos para Madureira (aaaaa, la-iáaaa — um salve ao saudoso Arlindo Cruz), onde encontramos a Rosilane, dona dos ingressos. Paguei-a em cédulas (aos mais jovens, naquele tempo nem sonhávamos com a existência do Pix, quase tudo era em "cash") e, quando ela finalmente nos entregou os tickets, o coração bateu um pouco mais forte.

Demos uma passadinha pelo Maracanã, que estava ainda mais espetacular decorado com os arcos olímpicos. Tiramos algumas fotos e, então, partimos para o tão desejado destino.

(Foto: arquivo pessoal)

Em Deodoro, a primeira imagem que me chamou a atenção foi um tanque de guerra estacionado em frente à estação de trem. A caminhada até o complexo é uma das minhas partes favoritas daquela saga. Pelo caminho, era possível ouvir pessoas falando diferentes idiomas e vê-las usando camisetas, trajes típicos e adereços que representavam seus países. Aquela diversidade cultural me encantou! A convivência entre povos é uma das maiores belezas dos Jogos Olímpicos.

Ao chegar, entregamos os ingressos ao voluntário responsável pela portaria com um misto de boas expectativas e apreensão. Ingresso validado, entrada liberada. Ufa! Finalmente respiramos aliviados. Comemoramos e, enfim, pudemos desfrutar do evento.

(Foto: arquivo pessoal)

Como ainda faltava cerca de duas horas para as partidas, aproveitamos para conhecer o Parque Olímpico, que recebeu 11 modalidades. Durante a andança, tivemos uma ideia e tentamos a sorte, afinal, quem não arrisca não petisca.

Fomos ao estádio do hóquei sobre a grama e perguntamos a um dos voluntários se ainda havia ingressos disponíveis para uma partida que já estava em andamento — e eu nem fazia ideia sobre quais seleções estavam em campo. Diante da resposta negativa, diria que eu e Nadia apenas “ventilamos” se havia alguma possibilidade de acesso... Mas, de forma educada, ele informou que não poderia abrir exceções.

Ok, era o esperado. Saímos de lá e seguimos para o ginásio onde assistiríamos aos nossos jogos mais tarde. Naquele momento, nada mais nada menos que a poderosa seleção dos Estados Unidos estava em quadra diante da China, então decidimos arriscar novamente. Como quem não quer nada, chegamos no sapatinho e abordamos a voluntária responsável. Mostramos nossos ingressos e, repetindo nossa atuação teatral de quinta categoria, perguntamos se já poderíamos entrar. Mais uma vez, fomos corretamente barrados.

Bom, só porque estávamos na nossa Disney o Pateta aqui achou que poderia conseguir alguma coisa. Não rolou. Pelo menos os voluntários fizeram seu trabalho direitinho — ponto positivo para a organização.

Deixamos o local, fizemos um lanche, descansamos um pouco, mas logo retornamos e ficamos entre os primeiros da fila (pouco ansiosos, né?). Assim que o acesso foi permitido, rolou uma cena engraçada logo no início do caminho: uma torcedora canadense tropeçou em um degrau e caiu bem na nossa frente. Diante daquela situação, pensei: “agora eu si consaaaagro”, como diria Milton Leite. Estendi a mão e ofereci ajuda desfilando meu vasto e invejável vocabulário em inglês:

— Are you OK? Do you need help???

Ela nem respondeu. Levantou-se e disparou tal qual Elaine Thompson-Herah, campeã daquela edição olímpica dos 100 metros rasos, sem olhar para trás e aparentemente envergonhada. Assim que se afastou, foi inevitável cairmos na gargalhada.

Enfim, entramos e procuramos um bom lugar, andando de lado como dois atletas de esgrima entre as cadeiras, com muito cuidado para não “trupicar”, já que o espaço era apertado — um dos poucos pontos negativos da experiência.

Mas isso pouco importou quando começou a cerimônia do primeiro jogo, entre Senegal e Sérvia. Sentamos perto dos animados torcedores senegaleses, que levaram instrumentos, apitos e festejavam sem parar. Pessoas de diferentes nacionalidades também curtiam e dançavam durante as paradas técnicas.

(Foto: arquivo pessoal)

O momento mais especial aconteceu quando a arbitragem lançou a bola ao alto. Eu e Nadia nos olhamos e a ficha caiu: o sonho de vivenciar os Jogos Olímpicos havia virado realidade!

(Foto: arquivo pessoal)

Após a vitória da seleção europeia por 95 a 88, assistimos ao triunfo da Espanha sobre o Canadá por 73 a 60. Naquele dia, estiveram em quadra Alba Torrens, bicampeã europeia com a seleção espanhola e hexacampeã continental por clubes, e Sonja Vasić, campeã europeia com a Sérvia em 2021.

(Foto: arquivo pessoal)

E, para tornar aquela lembrança ainda mais especial, tivemos o privilégio de acompanhar de perto duas seleções que subiriam ao pódio naquela edição: a Espanha conquistaria a prata, enquanto a Sérvia ficaria com o bronze.

Assim que as partidas acabaram, por volta das 20h, saímos do Parque Olímpico com aquele gostinho de “quero mais”.

Mas, como todo carnaval tem seu fim, era hora de pegarmos o caminho da roça. Voltamos a Del Castilho para buscar nossos pertences, seguimos para a rodoviária Novo Rio e colocamos um ponto final na aventura ao chegarmos a Mogi por volta das 9h da manhã de segunda-feira.

O narrador Luís Roberto de Múcio costuma dizer em suas transmissões que “os Jogos Olímpicos são o maior congraçamento entre os povos”. Quando penso naquele dia, a frase traduz perfeitamente o que vivi: diferentes culturas, idiomas, torcedores e atletas reunidos em um mesmo lugar, celebrando o esporte e, principalmente, o respeito entre si.

Até hoje, 2016 é, sem dúvida, meu ano favorito relacionado ao esporte da bola laranja. Mogi das Cruzes recebeu pela primeira vez o Jogo das Estrelas do NBB, em fevereiro, e tive a oportunidade de assistir de perto a oito seleções olímpicas, entre os torneios masculino e feminino. Para fechar o ano com chave de ouro, o Mogi Basquete conquistou o Campeonato Paulista — em casa, no Hugão, onde comemorei o título ao lado dos meus amigos, no “concretão” — e a Liga Sul-Americana.

Meu sonho continua sendo voltar aos Jogos Olímpicos, desta vez trabalhando na cobertura jornalística. Mas, mesmo que isso nunca aconteça, já tenho a felicidade de dizer que vivi uma Olimpíada. E, ainda que por um único dia, senti de perto tudo aquilo que torna esse evento tão mágico e inesquecível.

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#Jogos Olímpicos#Rio 2016#Especiais#basquete